terça-feira, 11 de novembro de 2014

Por que escolhi a restauração - (parte 1)



- A busca de um movimento monarquista pragmático -

Por: Vladimir Braun

A questão do Ceticismo - Nunca possuí vocação para ser uma pessoa crente, no sentido de crer em algo, não em termos de categoria cristã. Causas abstratas nunca me atraíram, fossem elas religiosas ou políticas. Durante minha infância e o início da adolescência frequentei por força de determinação familiar a igreja batista, e jamais experimentei um momento de arrebatamento ou epifania que seja.

"...jamais experimentei um momento de arrebatamento ou epifania que seja..."
 
Apesar dessa “insensibilidade”, e sem preocupação de julgá-la certa ou errada, as atividades religiosas me proporcionaram momentos interessantíssimos. Certa vez passei alguns dias num acampamento para jovens da igreja. Lá foram realizadas algumas vigílias – prática que consiste, resumidamente, em um culto que se estende por toda uma noite – porém sem adentrar pelo amanhecer, afinal éramos muito novos e estávamos em fase de crescimento.

Em um desses eventos, já durante a madrugada, a música e a pregação conduziram todos a um estado que costumo descrever por aproximação como “transe coletivo”. Estavam presentes cerca de 300 pessoas, e se elas de fato experimentaram um estado de graça é algo que não posso afirmar. O que me é possível dizer é o seguinte: Eu não tive nenhuma alteração. Não fui tomado por nenhum êxtase. De fato, me recolhi para as arquibancadas do ginásio onde ocorria o evento, sozinho, e fiquei lá observando enquanto aquilo acontecia.

A separação entre mim e todos os demais ficou claríssima. A partir daquele momento tomei ciência de que minha busca por sentido teria que seguir por algum outra via. Passados os anos, fui confrontado com o mesmo sentimento.

 
"Nas manifestações de 2013 (...) metaforicamente, voltei àquela arquibancada de onde testemunhei todos ao meu redor aparentemente fora de si"

Manifestações de 2013 - Milhões de brasileiros indo às ruas, passeatas enormes, polêmica, temor, discussões, vandalismo. Partidos buscando capital político em uma corrida desesperada para conseguir estampar seu próprio carimbo em cima dos acontecimentos. Ao encarar a tela da televisão e ouvir as notícias sobre as milhares e milhares de pessoas que marcharam sobre as capitais, senti o oposto daquilo que todo mundo ao meu redor demonstrava: um plácido desacreditar. Metaforicamente, voltei àquela arquibancada de onde testemunhei todos ao meu redor aparentemente fora de si, tomados por algo que me escapava totalmente.

Acredito que tanto na situação que vivi na adolescência quanto nas manifestações daquele ano muitos tenham se juntado à multidão não por uma inspiração legítima, mas sim em busca de alguma forma de pertencimento no seio do grupo. Da mesma forma que ocorrera mais de dez anos antes, a euforia que juntava as pessoas e as cimentava em um bloco coeso funcionava em mim no sentido oposto. À medida que todos compartilhavam aquela crença que os impulsionava às ruas, eu era lançado para fora como um ímã repelido por outro de polaridade igual. No lugar de ficar bêbado pela experiência, eu acordava como se um balde de água gelada desabasse sobre minha cabeça.

Mas, por quê?

A questão da ineficácia das doutrinas - Para começar a responder a pergunta acima, irei regredir mais uma vez às minhas vivências dominicais. Em tais ocasiões todos os discursos me pareciam vazios e desprovidos de qualquer substância. Nada naquelas palavras me apresentava qualquer solução, ou me fornecia ferramentas para superar as questões de fato. Retórica. Eu não conhecia essa palavra na época, mas sabia que se tratava apenas disso: Fala.

Após me afastar da igreja observei o mesmo fenômeno na política: ideologia. As manifestações ocorridas no ano de 2013 causaram a subida à superfície de toda uma articulação de discursos ideológicos, velhos conhecidos desde os bancos do ensino fundamental, passando pelo médio e enraizado na cabeça dos universitários e acadêmicos profissionais.

"Nada naquelas palavras me apresentava qualquer solução, ou me fornecia ferramentas para superar as questões de fato."
 
Os valores, descolados do cotidiano, se esvaziam em mero palavrório. As ações, carentes de um propósito, geram resultados efêmeros, quando muito.

Qual a razão desses enunciados? Ora, descrever as consequências dos atos públicos de 2013. Diversas tensões latentes emergiram com os acontecimentos, e, de fato, o vulto da mobilização popular sinalizou a possibilidade de novos acontecimentos. Porém, passado pouco mais de um ano, é fácil atestar que aquele ovo estava gorado. O governo então em exercício se mantém no poder, tendo sido reeleito. As mazelas nacionais causadoras da agitação permanecem intocadas.

Embora uma quantidade enorme de cidadãos tenha saído às ruas, não houve direcionamento, não houve um propósito. As ferramentas democráticas necessárias para que aquele esforço fosse canalizado para produzir uma adequação da realidade com as demandas populares simplesmente não existiam. Tudo se dissipou em uma ausência de força institucional patológica do Estado Brasileiro. Apesar disso, proliferaram os discursos que chegavam a usar o termo “revolução”, de forma mais que precipitada.

      "...os discursos que versam sobre ideais elevados e conduzem a explosões passionais são completamente inócuos caso não exista um trabalho sério que os acompanhe..."

Qual é o diagnóstico? A democracia brasileira se mostrou imatura. Uma vez que as instituições democráticas são insípidas, não houve um mecanismo capaz de processar as manifestações que ocorriam no espaço público de forma a atender às reivindicações apresentadas. O que ficou comprovado é que ao passo que não temos uma base sólida enquanto Estado, nos sobram demagogos. Abundam oportunistas do pensamento, os quais, se aproveitando da educação precária e da justa indignação dos cidadãos, tentam acumular poder.

Isso se torna possível exatamente porque o Estado Brasileiro carece de instituições duradouras, de estabilidade, de continuidade. O público, porém, percebe os sintomas, mas não conhece a doença. Sabemos que os políticos são corruptos, conhecemos a ineficácia dos serviços públicos prestados a nós, sofremos com o peso exorbitante dos impostos. Mas não se associa os efeitos à causa.

Conhecendo bem esse fato, os indivíduos que buscam se apropriar do Estado através da política utilizam as mais diversas ferramentas retóricas para seduzir os incautos com doutrinas já comprovadamente prejudiciais à saúde de uma nação. Para tanto se desvia o olhar público de um plano sério de investimentos, de infraestrutura, de prioridades como educação, de reforço institucional e, através da oratória, se utiliza a paixão daquele cidadão já irado com a situação lastimável do país para convencê-lo a seguir um sonho impossível.

"O que ficou comprovado é que ao passo que não temos uma base sólida enquanto Estado, nos sobram demagogos."
 
Com isso, cria-se um ciclo perverso. O agente político enfraquece as instituições com a finalidade abrir espaço para sua empreitada arrivista, cooptando e corrompendo quando necessário, iludindo eleitores que o mantém no poder. O indivíduo, por sua vez, vota naquele que lhe prometeu uma realidade transformada que jamais será entregue. O resultado é a degeneração do Estado, que fica ao sabor dos ventos, e a centralização do poder na pessoa do demagogo, que é o grande beneficiário dessa permuta nefasta.

E aqui está o motivo de meu afastamento tanto na situação que vivi naquele acampamento para jovens, quanto nos protestos de 2013. O afã crédulo, idealista, romântico, ingênuo, a grande emoção que motiva o agir sem o devido cálculo, a entrega à esperança primitiva de um sonho vago, um “bem maior” genérico, turva o julgamento humano.

Estariam aqueles jovens evangélicos com um futuro garantido em função daquele momento de graça? Poderiam dar-se ao luxo, por exemplo, de dispensar investimentos em instrução e trabalho por terem experimentado um êxtase religioso? Da mesma forma, podemos nós, brasileiros, nos abstermos de nossa responsabilidade sobre a conjuntura atual do país, uma vez que nos mobilizamos e berramos palavras de ordem nas praças, as deficiências estruturais do Brasil estão superadas?

A resposta é um claro e sonoro NÃO!. Tocados por Deus ou não, cada um daqueles rapazes e moças certamente precisou dedicar esforço para construir uma base de sustentação financeira, cultivar relações afetivas saudáveis, bancar uma residência, etc. Da mesma forma a nação brasileira ainda é responsável por seu Estado e respectivas instituições, o governo, a democracia. Trata-se de compromisso e trabalho, não de paixão. 

Em suma, os discursos que versam sobre ideais elevados e conduzem a explosões passionais são completamente inócuos caso não exista um trabalho sério que os acompanhe, inclusive no sentido de verificar a viabilidade de suas propostas. Portanto, desiludido com as imagens românticas, decidi rumar para as vistas agrestes do pragmatismo.