quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O governo que nos educa



Prova do Enem traduz em suas questões as ideologias e os anseios das autoridades que governam o país

Por: Demétrio Magnoli

A figura da Espanha tem a forma de uma Cruz. E lembra o Cristo que pintou Velázquez: o Redentor do Mundo e dos homens. Por isso, o destino da Espanha é cristão e universal. Porém, para cumprir este sublime Destino, a Espanha sempre precisou, imitando o divino Salvador, sofrer martírios, sacrifícios, sangue derramado, infinitas amarguras. E duras lutas.”

O manual España Nuestra, de Giménez Caballero, publicado em 1943, que introduzia a versão espanhola do fascismo no ensino do país, é um dos incontáveis atestados documentais da ambição das ditaduras de moldar a consciência política dos jovens desde os bancos escolares. No Brasil democrático de hoje, as provas do Enem refletem uma ambição similar. A escritura ideológica, patente ou subjacente, atravessa todos os anos as questões de ciências humanas, configurando um padrão facilmente reconhecível.

Getúlio Vargas, ao criar o MEC, usou de uma fórmula já bastante conhecida dos ditadores para estabelecer o controle social: começou a doutrinar as crianças nos bancos escolares para, no futuro, ter adultos obedientes nas ruas
 
A propaganda explícita das políticas racialistas é uma marca do Enem. Na prova aplicada anteontem, emerge duas vezes. Por meio da questão 42 (Prova Branca), o jovem candidato é conduzido a aplaudir o Parecer do Conselho Nacional de Educação que instituiu a “Educação das Relações Étnico-Raciais”. A formulação da questão cita um trecho do documento oficial, consagrado a difundir “posturas que eduquem cidadãos orgulhosos de seu pertencimento étnico-racial” – ou seja, uma pedagogia do “orgulho racial”. Num outro trecho, não citado, o Parecer conclama as escolas a desfazer os “equívocos quanto a uma identidade humana universal”, o que equivale a rasgar a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Por meio da questão 37 (sempre da Prova Branca), sutilmente, o Enem traça um fio histórico entre as atuais políticas racialistas e antigas demandas políticas dos “negros”. A formulação cita um trecho do estatuto da Frente Negra Brasileira (FNB), fundada em 1931 e explica que a entidade foi “fechada pela ditadura do Estado Novo”. Em seguida, conduz o estudante a selecionar a única alternativa viável, que enfatiza o engajamento da FNB na “luta por direitos sociais para a população negra no Brasil”. Os examinadores oficiais operam por seleção e omissão, ocultando a proximidade doutrinária da FNB com os integralistas, também proibidos após o golpe do Estado Novo. O subtítulo do jornal da FNB era “Deus, pátria, raça e família”. Daria uma bela questão, num outro Enem, pautado pelas dificuldades da reflexão crítica, não pelas simplórias certezas do discurso ideológico.

Frente Negra Brasileira (FNB), braço racial da Ação Integralista Brasileira de Plínio Salgado. Na foto, um dos membros da FNB fotografado com uniforme integralista em 1937
 
O antiamericanismo é um traço obsessivo do Enem. Ele aflorou desta vez na questão 26, a mais panfletária de toda a prova. Segundo a formulação, o grupo dos BRICS é formado por “países que possuem características político-econômicas comuns”, uma tese ousada que deve ser compulsoriamente admitida pelos candidatos, chamados a “comprová-la” pela seleção da alternativa “correta”. A única alternativa coerente com a formulação cimenta a unidade do grupo na lenda de que seus integrantes constituem uma “frente de desalinhamento político aos polos dominantes do sistema-mundo”. Por esse caminho, o Enem sacrifica no altar da retórica de nossa política externa as profundas divergências geopolíticas entre os países dos BRICS, notadamente o alinhamento estratégico da Índia com os EUA.

(Nota aos candidatos: certamente aturdidos pela ideia de uma unidade antiamericana dos BRICS, os cursinhos preferiram marcar como certa a alternativa C, que não indica uma “característica político-econômica” do grupo e, portanto, não satisfaz logicamente a demanda da questão. Talvez o INEP desvie seu gabarito para o rumo indicado pelos cursinhos, destruindo a lógica para salvar a cara...).

A imprensa é má; o governo é bom — eis uma ideia-força das provas do Enem. Na questão 23, o “presidente do jornal de maior circulação do país” justifica sua “adesão aos militares em 1964” em nome da “manutenção da democracia”. Na questão 24, a Comissão Nacional da Verdade surge como “iniciativa do Estado” que “resultou da ação de diversos movimentos sociais”. Os examinadores não mentem: giram os holofotes para iluminar as verdades parciais, habilidosamente selecionadas, que lhes interessam. A imprensa anda junto com os generais. O governo reflete a vontade dos movimentos sociais. As duas questões não falam, realmente, de 1964, mas de 2014. Não deveria ser “socialmente controlada” essa imprensa golpista?

Desde o Decreto 85A de 1889 até a atual proposta defendida pelo PT, o Estado sempre desejou impor seus tentáculos para manipular a imprensa. Ranço ditatorial que permeou todos os governos brasileiros nestes últimos 125 anos
 
O Brasil do Enem não é a Espanha de Giménez Caballero. No manual do fascista, uma figura de Cristo crucificado aparece sobreposta ao mapa da Espanha, com os braços estendidos da Galícia aos Pireneus e os pés encaixados em Gibraltar. Por aqui, o Enem contenta-se com esboços sugestivos e rascunhos sumários. Não “faz a cabeça” de ninguém, obviamente. Mas certamente contribui para a miséria intelectual em nossas escolas.

* o Professor Demétrio Magnoli é sociólogo, geógrafo e jornalsita

Este texto foi publicado originalmente em O GLOBO em 10.nov.2014
http://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/o-governo-que-nos-educa-14516438