segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Educação é o melhor remédio contra a corrupção



Por: José Boas

Dizem os antigos ditados: “é de pequenino que se torce o pepino”; “construir uma escola é derrubar dois presídios”; “o homem reto se faz desde pequeno”; “honestidade vem de berço”. Todos estes adágios fazem alusão à educação que se dá à criança para que floresça o homem de caráter, íntegro, capaz de agir com hombridade mesmo diante da mais generalizada falta de ética.

Embora o governo federal diga que situação educacional do Brasil melhorou, a realidade de muitas escolas no interior é alarmante
 
O senso comum de nossa sociedade, no entanto, diz que todos estes ditos são figurativos e remetem a um mundo ideal, onde a educação é supervalorizada e que hoje as coisas caminham de outra maneira. Há aqueles ainda que falam que pensar assim é anacrônico, “coisa de saudosista”.

Recentemente o instituto de pesquisas DATAFOLHA contratou um grupo de estatísticos com uma finalidade: verificar a relação existente entre o índice educacional dos países e a percepção da corrupção existente entre seus habitantes. Para isso foram cruzados os rankings do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), o ranking mundial de corrupção da ONG Transparência Internacional e o Índice de Educação da ONU.

Nos países onde há maciço investimento em educação, índices de corrupção são baixos. Na foto, escola na Dinamarca
 
Ao final da análise o estudo realizado pelo DATAFOLHA indicou que há uma espécie de relação diametralmente oposta entre educação e corrupção. Como em uma gangorra, quando uma está no alto a outra estará em baixo.

No entanto, diz-nos a ciência, a escassez de dados pode nos levar a leituras enviesadas do universo pesquisado! Logo, vamos aumentar um pouco mais a complexidade do tema abordado. Será que outros índices apontam para o mesmo cenário?

Vamos somar ao PISA e ao ranking da corrupção os índices mundiais de educação da ONU e o ranking mundial das democracias, divulgado anualmente pelo The Economist. É de se esperar, com isso, que o aumento de dados nos possibilite uma leitura mais ampla do quadro geral e, por fim, comprovemos se os indícios apresentados pelo DATAFOLHA são confiáveis.

Com o entrecruzamento destes dados chegamos a um resultado bastante interessante: dos quinze países líderes em cada um dos rankings (PISA, corrupção, educação e democracia), nada menos que onze deles figuram ao menos em três listas. São eles: Austrália, Noruega, Nova Zelândia, Finlândia, Islândia, Canadá, Holanda, Dinamarca, Suíça, Luxemburgo e Irlanda.



Entendendo o porquê de isso acontecer...

Uma sociedade mais educada tem melhores instrumentos cognitivos para fiscalizar as ações do governo mais de perto e entende que as instituições do Estado não pertencem a um grupo político, mas à toda população; este entendimento, portanto, cria uma grande pressão sobre os políticos para que “façam a coisa certa”, diminuindo a margem para que conchavos e acertos de bastidores possam ocorrer.

Assim explica Rafael Alcadipani, da Fundação Getúlio Vargas: “trata-se de um círculo virtuoso, pois, com menos corrupção sobra mais dinheiro para os governos ou as pessoas investir em educação. E isso também faz com que o país se torne menos corrupto no futuro”.

Contribui para isso outro fator determinante: a liberdade de imprensa!

Em países onde há menos corrupção e melhor educação, a imprensa também é mais livre para investigar, questionar, apurar e denunciar; já em países corruptos a imprensa segue dois caminhos: ou se torna conivente com a corrupção ou é amordaçada através de regulamentações que dificultam ou até mesmo impedem o acesso a informações que deveriam ser públicas.

O caso do Brasil

Na contramão disso tudo segue a república brasileira. A despeito do que quer dizer o governo com suas caríssimas campanhas publicitárias, o país patina na educação, figurando na 67ª posição no índice de educação da ONU e na 53ª do PISA.

Enquanto perdurar esta triste equação, o brasileiro permanecerá sendo gado eleitoral, tentando solucionar uma equação cujos elementos - embora evidentes - ele sequer reconhece
 
Ora, pelo que pudemos ler até agora dos dados apresentados, se a educação está em queda a corrupção está em alta (69° lugar). Atualmente passamos a vergonha de figurar ao lado de países internacionalmente reconhecidos por seus negócios “por debaixo dos panos”, como a Bulgária, El Salvador, Vanuatu e Cuba.

Como a corrupção é grande a nossa democracia é frágil (45° posto) e nossa imprensa está comprometida (prova disso é que atualmente aparecemos na 108ª posição no ranking mundial)... os veículos que dispõem de meios para investigar vendem-se ou fazem vistas grossas, já os que têm vontade de esmiuçar o que de fato acontece por detrás das cortinas são impedidos por um sem-número de regulações e burocracias, quando não de processos e pesadas multas por divulgarem “dados sigilosos”.

“A imprensa existe para publicar o que alguns não querem que se publique. Todo o resto é publicidade.”
(George Orwell)

Os mais pessimistas podem olhar para estes dados e afirmar que “sempre foi assim e que qualquer movimento para que haja alguma melhora é inútil”, mas será mesmo? Esse discurso só serve para duas coisas: manter a situação caótica ou, pior, contribuir para que tudo piore ainda mais, pois a passividade dá força àquele que nos agride. 

O que podemos fazer para mudar a situação, pois? Em primeiro lugar, comecemos por dar maior valor à educação, principalmente nos primeiros anos de formação: nossos filhos não são só os herdeiros deste país, mas seus futuros dirigentes; em segundo lugar, passemos a cobrar mais de nossos políticos: seus cargos não são uma conquista pessoal, mas uma responsabilidade assumida com cada cidadã ou cidadão; em terceiro lugar, exijamos maior qualidade da imprensa que nos informa, deixando de acreditar cegamente na matéria mais chamativa, quer seja ela pessimista, sensacionalista ou otimista (via de regra este tipo de texto traz dados manipulados ou até falsos); em quarto lugar, não sejamos nós agentes da corrupção! Voltando aos ditados com os quais começamos, “ladrão de tostão é ladrão de milhão”... temos que nos ater a fato que pequenos ou grandes, atos de corrupção são todos igualmente culpáveis.