segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Cultura - Polêmica e morte na literatura



Por: Andrew Amaral

Nos idos da República Velha, os jornais estavam repletos de grandes polêmicas… E não pensem que era só de política que se vivia então. As polêmicas de outrora tinham como principal personagem, a não menos controvertida, gramática da língua portuguesa. Cada um se julgava ser mais refinado cultor da nossa tão querida última flor do Lácio (e das inúmeras jurisprudências que a regem), e por vaidades meramente linguísticas, muitos amigos se tornavam, ao literal virar de uma página, inimigos de infância, mantendo o rigor desta característica (a infantilidade) até o fim. Dos jornais jorrava prolixamente o enredo que embalava as conversas de confeitarias, das reuniões de senhores da sociedade e dos corredores da academia.

Gilberto Amado, por vaidade, assassinou a tiros o escritor Annibal Theophilo
 
Uma mísera, mas não menos considerada, crítica a uma colocação gramatical foi o que deu inicio a animosidade entre o poeta Annibal Theophilo e o político Gilberto Amado. Em um incidente histórico, que entrou para os anais do que poderia se considerar uma espécie de “obituário antológico”, Amado, levou muito a sério a crítica que lhe fora desferida anos antes, no Jornal do Commercio, por Theophilo, e num rompante, instigado por uma derradeira frase irônica, uma esbarrada entre ambos na rua foi fatal. Amado desferiu tudo o que tinha em seu revolver, e em seu âmago, contra Theophilo.

Numa romântica e fictícia reconstituição do que deveria ter representado este incidente, a escritora Anna Lee, em “O sorriso da sociedade” (Ed. Objetiva, 2006) assim retratou o desabafo de Olavo Bilac a um amigo, no ermo de sua desilusão: “O problema não é a Academia. Somos nós, os homens de letras. Não vê o que acaba de acontecer? O Gilberto Amado matou o Annibal com um tiro pelas costas e por quê? Porque não somos capazes de perdoar ao adversário um erro de gramática, a má colocação de um pronome, a falta de uma crase ou um verso de pé-quebrado”.

Embora a monarquia já tivesse sido extinta do Brasil, fazia alguns anos, no mundo das polêmicas imperava absolutamente a figura de Carlos de Laet. Outrora professor do renomado Pedro II, Laet fora aposentado, compulsoriamente, por sua militância fervorosa a ideais que não estavam mais em voga, a saber, o catolicismo (em sua expressão mais ultramontana), e o monarquismo. Os que lhe eram coevos, raras exceções, o consideravam um decrépito representante de tradições que deveriam ter sido extirpadas pela espada do Marechal Floriano. E como navegar em mares tortuosos poderia lhe custar caro demais (como a política da época), Laet deu um show de surfe nas caudalosas ondas das polêmicas de então. Recusar uma disputa a este homem era impensável, pois ele fazia Machado de Assis (em seus últimos e melancólicos anos) abrir as páginas do jornal só para ler suas disputas, e nada mais.

Carlos de Laet, ex-professor de Dom Pedro II, sobre Ruy Barbosa: “Se ele é o único que conhece a língua portuguesa, como vocês sabem que ele conhece? E se vocês sabem, então ele não é o único”.
 
De Camilo Castelo Branco a Rui Barbosa, ninguém que teve a ousadia de cruzar o seu caminho saiu incólume da artilharia linguística do irascível professor. No bom português de hoje, ele “sambou na cara” do autor de “Amor de perdição”, ao citar-lhe ironicamente erros de concordância em sua obra, isto devido ao fato do autor português, ao julgamento de Laet, ter desmerecido a memória do então recém falecido escritor Fagundes Varela, nomeando-lhe desonrosas citações.

Quanto a Rui Barbosa, que era aclamado em vida como o “quase provável” pai da língua portuguesa, Laet ironizou quando, em tom de provocação, lhe disseram que o político baiano era o único que conhecia o bom português, ao que ele respondeu (parafraseando) “Se ele é o único que conhece a língua portuguesa, como vocês sabem que ele conhece? E se vocês sabem, então ele não é o único”.

Doceria Colombo, no Rio de Janeiro, palco de acaloradas disputas entre políticos e escritores na República Velha sobre a gramática portuguesa
 
Diz-se que Machado de Assis, o pai da Academia Brasileira de Letras, evitou o quanto pode se influir no ringue das polêmicas de sua época, fossem elas quais fossem. E ao receber um “refinado” convite para “adentrar” nas querelas linguísticas, ele gentilmente se esquivou dizendo a Laet “ o que para o senhor seria uma diversão, para mim seria uma verdadeira agonia”. 

Os tempos são outros, as polêmicas também. Mas o mais importante é lembrar que qualquer que seja o lado, ou o conteúdo, em todo embate de ideias existem regras que não se podem prescindir, entre elas cito como as mais importantes: o respeito mútuo, o louvor a liberdade de pensamento e o apreço as diferenças. A sociedade de hoje pode até ser menos superficial que a de outrora (ou não), mas a essência do ser humano tem sempre que primar pela excelência. Enaltece a memória do velho ditado latino “No fim do jogo o pião e o rei vão pra mesma caixa”.