quinta-feira, 27 de novembro de 2014

1889: O ano, o livro e o legado



Por: Andrew Amaral

A história não se cansa de se repetir. E os enredos, embora se pareçam, grosso modo distintos uns dos outros, têm o viés da similaridade incutido em seu seio. Forçosamente nos distanciamos de uma reflexão holística da humanidade, que desde o Jardim do Éden, tem sido vítima e autora dos mesmos pecados e das mesmas veleidades, para justificarmos aquilo que ansiosamente necessitamos definir. Neste contexto a explicação do que foi a instauração da República, sob o ângulo do que havia sido o ano de sua proclamação, traz à historiografia um grande dilema a ser retratado. Embora não sendo, nem pretendendo ser, historiador, julgo que nenhuma explicação ainda foi plausível a ponto de definir, sem margens ilusórias de erro, o que realmente motivou um grupo de pessoas, a principio “bem intencionadas”, porem a termo, aquele que foi um dos maiores Impérios da humanidade (mais precisamente o 11°em extensão territorial).

Ruy Barbosa, quiçá o mais arrependido de todos os republicanos, chegou a viajar à França para suplicar o perdão de Dom Pedro II
 
Um Império de contradições, é claro. Pois em contradições caminha a humanidade. Machado de Assis, a maior referência da literatura brasileira, folgava em criar personagens que personificavam a essência banal e contraditória do ser humano, incorporando um tanto de brasilidade as geniosas manifestações de seu tempo. Ele criticou o Brasil que tinha títulos de nobreza, mas também o Brasil que extinguiu, apenas nominalmente, os privilégios de nascença.

Nossa nação, ainda como hoje, era tida como um país exótico no continente americano (embora os motivos da consideração tenham se alterado ao longo do tempo). Único a conservar um “modelo” de sociedade e sistema de governo tipicamente europeu, também era o único que amalgamava um misto de raças, credos e costumes sob a batuta de um mesmo maestro, Dom Pedro II. A unidade, outrora tão questionada e combatida, foi mantida graças à necessidade de manutenção de um trono que tinha uma história de grandeza a ser zelada. Nenhum outro chefe de estado gozou, nem gozará, em ter a seu dispor tanto tempo de governo e apreciação popular. Mas, contraditoriamente, tudo isto não foi suficiente para que o trono edificado pelo pai da Independência fosse mantido geração após geração.

Dona Isabel do Brasil: carola ou vítima da intolerância positivista de Augusto Comte?
 
Laurentido Gomes, hoje conhecido jornalista, ao arrematar a trilogia (1808, 1822 e 1889), traz novidades que surpreendem, mas que não justificam o ocaso tão melancólico do Império do Brasil. E talvez nossa consciência histórica (digo como um todo) esteja tão viva quanto àquela que foi o pomo da discórdia entre o político Silveira Martins e o coveiro da monarquia brasileira, a baronesa do Triunfo (triunfo de um rancor irreconciliável, que perdurou por toda uma vida). Fica evidente que a proclamação República, ao contrario de seus militantes, não tinha consciência da sua própria existência, no momento, que de fato, ela já respondia pelo governo e pelo destino do Brasil. Haja vista foi preciso que uma marionete encenasse a derrubada do governo, que se despedia de seu predecessor com uma retumbante “Viva o Imperador!”. Estas foram as palavras do marechal no Campo de Santana a por cabo ao longo reinado tropical de D. Pedro II.

Muitos colocam a Princesa Isabel, com sua beatitude (beirando a calorice), como culpada por não mantermos uma monarquia. Ora, isto é no mínimo supor que vivíamos sob uma monarquia frívola e opressora (como muitos ainda pensam ser uma monarquia). Já a relação causa/efeito, da Lei Áurea, em contra partida, tem sido uma das melhores campanhas pró-isabelinas, mesmo assim, superficial como argumento para a descaracterização do Brasil de então. No outro lado do prisma, pairam as cores secundarias, com argumentos de época, como o pensamento positivista (a última-moda intelectual) e a alienação do povo que seria salvo um seleto grupo de super heróis, na época em que eles não tinham todo o glamour cinematográfico, como tem hoje.

Sem legitimidade desde o golpe de 1889 a república brasileira tenta, até hoje, "explicar-se" frente ao povo brasileiro
 
A historia tem por combustível os fatos, mas se apresenta por meio de conceitos. O ouro branco constituiu uma novidade, no sentido que dá uma nova perspectiva a mesma coisa que conhecemos (unanimemente) por outra aparência, aquilo que reluz, mas que nem sempre é dourado. Precisamos nos ater aquilo que ainda não nos acostumamos (nem nos é confortável, quer sob o ponto de vista intelectual quer sob o ideológico)... a ver a realidade por ângulos diferentes. Compreendo que embora sejamos animais políticos, da política temos pouco aproveitado. Fica a lembrança do pai da Academia de Letras, que assim justificava seu realismo (para muitos um funesto pessimismo):

“(...) Como partidário de uma idéia, andou Victor Hugo perfeitamente. Como pensador e estadista, queiram perdoar-me; encosto-me antes a Montesquieu.
Para ser pensador é mister olhar as coisas por cima do ombro do seu partido.
Nisto incluo republicanos e monarquistas, socialistas e absolutistas, todos quantos querem organizar o mundo como um tabuleiro de xadrez, e dar a forma predileta de suas convicções como a panacéia universal de todas as doenças políticas, sem atenção à índole, estado, tendências, desenvolvimento histórico e moral dos povos (...)”.

Os séculos passam, mas 1889 ainda está presente em nossa realidade, quer gostemos ou não. Ratificar ou retificar os erros é um dilema que se impõe. Que a história seja nossa musa, e não o nosso algoz.