sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O populismo quebrou a Eletrobras... e você pagará a conta!



Por: José Boas

A experiência econômica ao redor do mundo demonstra, há muito, que intervenções do governo em áreas estratégicas da economia são sempre causa de distorções e desastres que acabam pesando no bolso do contribuinte de uma maneira ou outra, causando-lhe prejuízos quando não a miséria.

Durante o período republicano o Brasil experimentou isso de diversas formas e momentos: começou ainda no final do século XIX com a política de “preço mínimo” do café e agravou-se com o encilhamento, a primeira uma clara patrimonialização do dinheiro público por parte dos cafeicultores (uma espécie de “prêmio” por terem apoiado o golpe de 15 de novembro) e, o segundo, uma aventura tresloucada protagonizada por um advogado que achava entender de economia... Resultado: destruição do Tesouro Nacional e o primeiro surto de hiperinflação de nossa História.

De lá para cá outro fator – o populismo – veio somar-se ao aventurismo e ao patrimonialismo típico dos inquilinos do poder e, juntos, avançam sobre o bolso dos contribuintes brasileiros com uma voracidade crescente e sem fim. O populismo é, em poucas linhas, um amálgama de política eleitoreira com uma festa custeada pelo dinheiro do contribuinte.

Dilma e o desconto de 18% que nunca veio... se promessa foi de mentirinha, a conta será de verdade

A última travessura populista promovida pelo Palácio do Planalto foi protagonizada pela Eletrobras. Para quem se lembra, no final de 2012 uma sorridente Dilma Rousseff foi à televisão dar uma notícia que parecia maravilhosa: a redução de até 18% das tarifas de energia elétrica para os lares brasileiros. Prometido, porém jamais cumprido. No entanto, se o desconto não apareceu, a conta virá... segura e ligeira!

Quem diz isso são vários especialistas do setor energético do país, corroborados pelo recente relatório sobre o setor emitido pelo Tribunal de Contas da União – TCU. Pode-se afirmar a partir daí que a Medida Provisória 579, que tratou do sistema elétrico e gerou a tal “boa notícia” dada pela sorridente Dilma, foi uma das mais desastrosas iniciativas de um governo colecionador de trapalhadas em vários setores da economia nacional na última década.

O dito desconto que jamais chegou às contas de energia dos cidadãos comuns tornou-se, nos dois últimos anos, um rombo de R$ 17,8 bilhões nas contas da estatal energética. Somada esta vultosa quantia aos assombrosos juros do período o valor final chega à monstruosa cifra de nada menos que R$ 26,6 bilhões. Em outras palavras, Guido Mantega (Fazenda) e Edison Lobão (Minas e Energia) fizeram o pior negócio do mundo, pois garantiram um desconto (de mentirinha) da ordem de R$ 16,8 bilhões para os consumidores em troca de um desembolso (esse de verdade!) de R$ 25 bilhões em 2013 e outros R$ 36 bilhões até o final deste ano.

Brasil gasta hoje  R$ 2,3 bilhões por mês para manter usinas termelétricas para suprir déficit energético do país
Resumo da ópera: para garantir alguns votos, Dilma mais uma vez vendeu-nos uma vaca que não dá leite, pois se o desconto prometido – de 18% – não apareceu até hoje, a partir de 2015 (data posterior às eleições) arcaremos com um aumento que poderá atingir os 30% em nossas faturas mensais.

Mas como desgraça pouca é bobagem e como governos presidencialistas trazem em seu DNA uma miopia incorrigível, o governo ainda nos presenteia com outro problema que cobrará sua conta em mais ou menos duas décadas: para contornar o gargalo energético vivido pelo Brasil desde o final dos anos 90, Dilma investe rios de nosso dinheiro em usinas termelétricas – caras, de baixíssima produtividade e altamente poluentes – quando poderia investir, com o mesmo dinheiro, em outras matrizes mais baratas, eficientes e limpas, tais como a biomassa (através do bagaço da cana-de-açúcar gerada pelas usinas sucroalcooeiras), a eólica e a solar.

Só para termos uma pálida ideia apenas sobre os dois últimos modelos, Espanha, Holanda, Noruega e Dinamarca vêm resolvendo seus problemas energéticos utilizando-se apenas deles. A Holanda aproveitou sua secular tradição com moinhos de vento para investir em fazendas de energia eólica, além de aproveitar até as ondas do mar como força geradora; a Noruega e a Dinamarca descentralizaram sua produção energética e cada casa pode ser uma usina, gerando sua própria corrente elétrica e adquirindo da rede pública tão somente o necessário para complementar o consumo familiar; por fim, a Espanha hoje é referência mundial em produção de energia elétrica solar, mesmo com território aproveitável extremamente reduzido se comparado ao espaço que o Brasil dispõe.

Enquanto outros países com recursos muito menores como Holanda, Dinamarca, Suécia e Espanha investem em fontes de energia baratas, limpas e renováveis, o Brasil ainda sufoca o consumidor com uma política energética centralizada, ineficiente e cara

Mas o problema repousa somente no atual governo? Parece que não, pois os demais candidatos que disputam a faixa presidencial pouco ou nada falam sobre o assunto: o rombo da Eletrobras até agora não foi citado na propaganda política, em nenhum dos debates ou em qualquer entrevista; a reforma de nossa matriz energética – urgente – é tratada como se fosse um projeto ainda a ser estudado para, quem sabe, ser implementado num futuro tangível tão somente por nossos netos. Isso me faz vislumbrar uma única sugestão para nossos leitores: pensem na possibilidade de comprar mais velas para iluminar suas casas.

Fontes:

Correio Braziliense - 02 de outubro de 2014 - Caderno de Economia - pág. 10