domingo, 12 de outubro de 2014

O Brasil que não foi...



País perde, em apenas quatro anos, dezesseis posições no ranking mundial de competitividade

Por: José Boas

Em 2002, quando eu era apenas um estudante de graduação na Universidade de Brasília – UnB, lembro-me bem do discurso de Lula no Centro Comunitário como candidato à presidência da república. Com a voz sempre rouca ele dizia  que “o que fazia a grandeza da nação era sua capacidade competitiva no mercado exterior” e por isso mesmo, continuava ele, “era necessário fazer o Brasil parar de ser um mero exportador de commodities e se tornar um exportador de produtos com maior valor agregado”. Em seu discurso, lembro-me bem, havia uma proposta para um país competitivo e com os olhos voltados para o mercado internacional... Lula vendia um Brasil melhor, competitivo e próspero.

Duas capas da The Economist: na primeira o Brasil como "a maior história de sucesso da América Latina", em seguida o Brasil em queda livre e sem rumos...
 
Lembro-me também que, graças a este discurso, ele ganhou as eleições contra José Serra quase que por unanimidade nacional (o único estado que não deu maioria a Lula naquelas eleições foi Alagoas). Era de fato um grito de esperança para uma gente que estava sufocada com tantos anos de arrocho, aperto no orçamento familiar e assombrada pelo sempre presente fantasma do desemprego. Era um grito de esperança que se tornou em... nada.

Alheios aos discursos de ocasião, os dados do IBGE demonstram outro panorama, pois de 2002 para cá o Brasil vem sofrendo consecutiva perda de produtividade industrial, com cada vez menor relevância deste setor na economia, chegando hoje a patamares inferiores as 13,3% da participação no PIB, fato que não se via desde 1955, durante o governo de Juscelino Kubitschek, fato único até entre os outrora tão aclamados “BRICS”.

A “competitividade” prometida pelo então candidato Lula há doze anos não se tornou realidade em seu primeiro mandato como presidente, nem no segundo e tampouco nos quatro anos de governo de sua sucessora, Dilma Rousseff. Na realidade o que vemos hoje é justamente o contrário: o Brasil perde, ano a ano, espaço para outros concorrentes no cada vez mais disputado mercado internacional ao passo que ainda se vê preso à exportação de commodities como único elemento de real participação na economia global.

Empresário brasileiro: ladeira a baixo na luta contra um Estado caro, ineficiente e demagogo

O Índice de Competitividade Mundial (World Competitiveness Yearbook - WCY), divulgado pelo IMD - International Institute for Management Development e, no Brasil, pela Fundação Dom Cabral existe desde 1989 e é considerado o melhor e mais completo guia a medir a competitividade dos países dentro do cenário internacional, servindo a vários governos e multinacionais para avaliar as condições de competitividade das 60 principais economias do mundo, fazendo cruzamento de dados nacionais e internacionais desses países além de uma ampla pesquisa de opinião com mais de quatro mil executivos em todo o planeta.

O Brasil em queda livre – apenas no último ano o Brasil perdeu três posições neste ranking e, nos últimos quatro, foram dezesseis posições em queda livre. Em 2005 o nosso país ocupava a 42ª posição, hoje temos que amargar a 54ª, ficando atrás de Jordânia (53ª), Colômbia (51ª), Peru (50°), Índia (44ª), Filipinas (42ª), México (41°) e Turquia (40ª), por exemplo.

No outro lado da tabela vemos as mesmas figuras de sempre: os Estados Unidos (1°), a Suíça (2ª), Cingapura (3ª), Hong Kong (4°, a despeito da China), Suécia (5ª), Alemanha (6ª), Canadá (7ª), Emirados Árabes Unidos (8°), Dinamarca (9ª) e Noruega (10ª).

Mas o que estes países de sucesso têm em comum para serem sempre os melhores, a despeito de a franca maioria deles ter tão poucos recursos naturais a explorar? E a resposta vem como um verdadeiro tapa na cara de nós que tudo temos e nada aproveitamos: eles têm verdadeiro amor pela livre iniciativa e respeitam os que produzem riquezas dentro de suas fronteiras, desde o mais simples dos trabalhadores até o mais rico dos empresários. Neles o Estado não suga a poupança auferida com a produtividade alheia; neles o Estado não é um paquiderme burocrático; neles as taxas de juro bancário não estrangulam quem quer empreender... Neles, nada é como aqui.

Por que as principais economias globais sempre avançam mais que o Brasil? Porque lá nada é como aqui
 
Enquanto nosso país continuar a bancar um Robin Hood de araque, assaltando quem produz com uma taxa de impostos de quase 40% e nada devolvendo ao contribuinte; enquanto tivermos leis sabotadoras a ordenar nossas empresas; enquanto tivermos leis trabalhistas anacrônicas a reger nosso mercado de trabalho; enquanto nosso modelo de transporte de mercadorias e riquezas for mero discurso eleitoreiro; enquanto nosso sistema educacional for um simples reprodutor de ideologias falidas; enquanto o Estado for um monstro centralizador, paternalista e patrimonializado, sempre seremos tão somente uma promessa que nunca se realiza, sempre seremos o “país do futuro” que atola no presente, sempre seremos o que deveríamos ser se nossos empreendedores fossem respeitados e valorizados. 

Lições a serem tiradas - Enfim, qual é a lição que tiramos disso tudo até o presente momento? Em primeiro lugar que só o gogó dos políticos não faz um país crescer; em segundo lugar que economia saudável não se produz aos canetaços; em terceiro que para um país ser competitivo é fundamental que o Estado não atrapalhe quem realmente produz riquezas; em quarto que é fundamental se investir na formação de mão de obra competente e igualmente competitiva e; em quinto lugar, que todo o sistema precisa ser trocado, caso contrário continuaremos a ser, de maneira cada vez mais irremediável, simples colônia das demais economias globais.

Fonte: FDC Brasil - FDC.org