segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Dilma e o neocoronelismo

Por: José Boas

Na última semana Dilma tem deixado mais claro o seu “jeito de governar” para uma parcela da população um tanto distante das informações mais aprimoradas da administração pública.

Sarney, Dilma e Lula: coronéis de gerações diferentes, mas de práticas idênticas e com os mesmos objetivos

Há menos de quinze dias reuniu-se com metade de seu exército de ministros para cobrar deles “maior empenho na execução de obras do PAC até o final de 2014”, com ênfase àquelas de maior apelo popular como o “Minha Casa, Minha Vida”, por exemplo. Pelo que se sabe nos corredores da Esplanada, nada ou muito pouco tratou de obras de infraestrutura, da desindustrialização do país, nem tampouco falou em reduzir gastos do governo numa eventual reeleição.

Por outro lado, Dilma reclamou que a Tribunal de Contas da União está “atrapalhando seu governo” ao embargar obras onde foram encontrados fortíssimos indícios de desvio de dinheiro público e superfaturamento, dizendo que isso vai atrasar o progresso de várias regiões do país e que, se constatado que não há irregularidades, ninguém ressarcirá o governo e as empreiteiras...

Com esse comportamento Dilma deixa mais do que evidente que o coronelismo político no Brasil está longe de sumir do mapa. Suas práticas demonstram isso com cores bastante fortes e os vícios de sua administração apenas deixam claro que o PT-governo renega todo o discurso do antigo PT-oposição.

Lula e Dilma fundaram um novo tipo de coronelismo no Brasil, mais colorido e perfumado pelo brilho das publicidades bem feitas. Os atuais coronéis não aparecem mais como pessoas a serem temidas, mas amadas; não são mais donos de vastos latifúndios improdutivos, mas de partidos políticos cheios de gado eleitoral; não vestem mais ternos de linho branco, mas grifes internacionais; não exportam mais commodities, mas discursos cheios de promessas vazias e realizações de “faz de conta”.

Jeca Tatu, de Monteiro Lobato: igual aos eleitores dos novos coronéis, está sempre atrás de quem lhe dê uma "ajudinha" na vida... faz da preguiça sua profissão e propagandeia aos quatro ventos suas amarguras

Não obstante, o esqueleto do coronelismo continua intocado: adoram um personalismo, idolatram a si mesmos, suas benesses para a população são regadas com dinheiro público, estão sempre dispostos a lançar mão – em período eleitoral – de alguma obra gigantesca para chamar a atenção dos crédulos e ignorantes eleitores, cercam-se de bajuladores, aumentam exponencialmente suas fortunas pessoais desviando dinheiro do povo, compram a parte da imprensa que se prostitui em troca dos rios da cada vez mais cara publicidade estatal, compram o voto de políticos sem-moral para fazer passar em forma de lei seus interesses, lotam os gabinetes estatais com apadrinhados políticos completamente desqualificados, fazem discursos fantasiosos completamente descolados da realidade, não veem limites à política de pão-e-circo, usam os órgãos de polícia e inteligência para investigar seus inimigos e proteger aliados e... reclamam quando alguma força democrática se coloca contra seus interesses eleitoreiros.

Lula, Dilma e seu partido já cumpriram todos os itens desta lista com maestria e usam os índices de popularidade para aferir se suas estratégias vão bem... e, sim, vão muito bem, pois infelizmente o voto – no Brasil – ainda se mede por quantidade, não por qualidade. O eleitor brasileiro médio ainda é o mesmo Jeca Tatu retratado por Monteiro Lobato: vota pelo estômago, é semianalfabeto, acha que eleição é igual a uma corrida de cavalos e não quer “perder o voto” escolhendo quem não vai ganhar, anseia por um “salvador da pátria” capaz de fazer milagres, procura um “paizinho” que lhe dê tudo à mão beijada, acha que estudar é “coisa de gente doida” e trabalha “por obrigação”... eis, ainda, a grande massa eleitoral desses coronéis do século XXI.

Assim, enquanto sobreviverem nossos “Jecas Tatu” de votos comprados e consciências embotadas, também sobreviverão nossos coronéis, pouco importando suas roupas, partidos ou discursos... ambos são um câncer e um retrocesso para qualquer sociedade em qualquer tempo ou lugar.


Nós, por outro lado, somente teremos nosso trabalho realmente valorizado e um país digno quando – corajosamente – educarmos o Jeca e nunca mais darmos ouvidos aos coronéis, sejam eles “da dentadura” ou “do bolsa-família”.