quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O Diploma sem valor (parte 3) – Pouca teoria, nenhuma prática – e o mercado a demandar qualificação e eficiência


Tradição bacharelesca, má qualificação e distorções dentro do mercado de trabalho acabam levando jovens brasileiros a uma formação que, em quase todos os casos, os afasta das pricipais carreiras demandadas

Por: José Boas

Junto à má qualidade das instituições de ensino espalhadas pelo Brasil, assim como abordado no texto anterior, há que se notar a pobreza de conhecimento trazida pelo aluno das etapas anteriores (ensinos fundamental e médio) e o baixo aporte de conhecimento efetivo oferecido pelas instituições. Sem conhecimento teórico e sem treinamento adequado para o exercício da profissão, muitos jovens entram e saem dos bancos das faculdades praticamente da mesma maneira.

É o que apontou para a BBC Brasil Marcus Soares, professor do Insper especialista em gestão de pessoas. Segundo ele, “muitos jovens têm vivência acadêmica, mas não conseguem se posicionar em uma empresa, respeitar diferenças, lidar com hierarquia ou com uma figura de autoridade (...) e entre os que se formam em universidades mais renomadas também há certa ansiedade para conseguir um posto que faça jus a seu diploma. Às vezes o estagiário entra na empresa já querendo ser diretor”, conclui.

Isso cria uma série de impasses para as empresas, pois ao mesmo tempo que as obriga a adaptarem-se à baixa qualidade oferecida pela maioria dos recém-formados, por outro impõe-se que se mantenham os bons quadros a qualquer custo, dado sua escassez no atual cenário.

Enquanto os jovens universitários brasileiros lotam as salas dos cursos de direito e administração, faltam engenheiros, químicos, geólogos e matemáticos, dizem especialistas

Marcelo Cuellar, Consultor em RH da Michael Page, explica-se a falta de experiência dos jovens – em parte – porque o Brasil experimentou entre meados dos anos noventa e início dos 2000 um grande avanço econômico e uma inserção mais aguda na economia global. “Tivemos um boom econômico após um período de relativa estagnação, em que não havia tanta demanda por certos tipos de trabalhos. Nesse contexto, a escassez de profissionais experientes de determinadas áreas é um problema que não pode ser resolvido de uma hora para outra”, diz Cuellar.

Segundo ele, citando o caso dos engenheiros recém-formados, “não dá para esperar que, agora, seja fácil encontrar engenheiros com dez ou quinze anos de experiência em sua área – e é em parte dessa escassez que vem a percepção dos empresários de que ‘não tem ninguém bom’ no mercado”.

Tradição bacharelesca – Some-se a isso uma terceira razão apresentada por especialistas para explicar a decepção com a “geração do diploma” estaria ligada a um desequilíbrio de oferta e demanda, pois se por um lado o mercado necessita de bons profissionais em áreas como engenharia, economia, matemática e química, por exemplo, os jovens ainda tendem a procurar áreas mais tradicionais, como administração e, principalmente, direito.

O Brasil precisa de mais engenheiros, matemáticos, químicos ou especialistas em bioquímica, por exemplo, e os esforços para ampliar o número de especialistas nessas áreas ainda são insuficientes”, diz o diretor-executivo da Câmara Americana de Comércio (Amcham), Gabriel Rico, que dá como exemplo um caso recente: “Em 2011 o país conseguiu atrair importantes centros de desenvolvimento e pesquisas de empresas como a GE a IBM e a Boeing, mas se não há profissionais para impulsionar esses projetos a tendência é que eles percam relevância dentro das empresas”.

Hoje, técnicos em petroquímica, redes elétricas e mineração com alguns anos de experiência chegam a ganhar R$ 9 mil por mês. São poucos os bacharéis que atingem um salário desses no Brasil atualmente
 
Ainda existe para muitos especialistas como Rico uma lenda a ser quebrada entre os estudantes brasileiros que procuram uma profissão: o excesso de valorização dos cursos científicos em detrimento dos cursos técnicos. “É bastante disseminada no Brasil a ideia de que cargos de gestão pagam bem e cargos técnicos pagam mal. Mas isso está mudando – até porque a demanda por profissionais da área técnica tem impulsionado os seus salários”, diz o consultor.

Rafael Lucchesi, diretor da CNI e também é o diretor-geral do Senai, segue a mesma linha argumentativa ao dizer que “temos uma tradição cultural bacharelesca, que está sendo vencida muito lentamente”. 

Para mostrar como há desinformação sobre os cursos técnicos no Brasil, Lucchesi cita dois exemplos: o primeiro é dos operadores de instalação elétrica e dos técnicos em petroquímica, que chegam a ganhar R$ 8,3 mil por mês; o segundo é o dos técnicos de mineração, que com dez anos de carreira atingem salários de R$ 9,6 mil. “São poucos os profissionais com ensino superior no Brasil de hoje que ganham um ordenado desses (...) Atualmente há uma demanda muito grande por profissionais nestas áreas e  seria um grande negócio para qualquer jovem investir em carreiras assim”, destaca.

Fonte:

BBC Brasil
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/10/131004_mercado_trabalho_diplomas_ru.shtml