terça-feira, 22 de outubro de 2013

O Diploma sem valor (parte 2) – Instituições que não ensinam; alunos sem formação básica ... uns brincam de ensinar, outros brincam de aprender


Por: José Boas

A principal causa da "geração diploma" não atingir um grau satisfatório de qualidade e produtividade, segundo especialistas da área, estaria relacionada à qualidade do ensino e pouco valor dado às habilidades dos alunos que se formam na maior parte das instituições espalhadas pelo país. Junte-se a isso o baixíssimo rigor por parte do MEC em credenciar e fiscalizar os novos estabelecimentos de ensino superior no Brasil e temos o atual quadro.

Atualmente, estas instituições têm se mostrado um grande e lucrativo nicho de mercado. Prova disso é o salto na quantidade de centros universitários e faculdades: em 2000, o Brasil tinha pouco mais de mil instituições de ensino superior. Hoje são 2.416, sendo 2.112 delas particulares.

Com o aumento vertiginoso de instituições e a indiferença do MEC quanto à qualidade do ensino oferecida, a educação superior no Brasil tem se tornado um grande mercado de diplomas que não certificam a qualificação de seu titular.
"Ocorre que a explosão de escolas superiores não foi acompanhada pela melhoria da qualidade. A grande maioria das novas faculdades é ruim", diz José Pastore, da Faculdade de Economia da USP.

Tristan McCowan, professor de educação e desenvolvimento da Universidade de Londres, concorda com a afirmação de Pastore. Após uma década de estudos dedicados ao sistema educacional brasileiro, McCowan declara: “São mais uma extensão do ensino fundamental (...) E o problema é que trazem muito pouco para a sociedade: não aumentam a capacidade de inovação da economia, não impulsionam sua produtividade e acabam ajudando a perpetuar uma situação de desigualdade, já que continua a ser vedado à população de baixa renda o acesso a cursos de maior prestígio e qualidade”, diz.

Sem real qualificação dos portadores de diploma, muitas empresas começam a apostar em técnicos que, mesmo sem formação superior, são capazes de resolver seus problemas mais comuns.

  
E o desafio para mudar este quadro não é dos pequenos. Segundo recente estudo realizado pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM), vinculado ao Ibope, nada menos do que 38% dos estudantes de nível superior no Brasil sofrem em algum grau de analfabetismo funcional, ou seja, começam a fazer um curso superior sendo incapazes de ler um texto completo e dele extrair as informações básicas, interpretar tabelas ou gráficos ou associar informações de maneira lógica.

Formação fundamental tem culpa - Segundo a Diretora-Executiva do Instituto Paulo Montenegro, Ana Lúcia Lima, “tal fenômeno em parte reflete o fato da expansão do ensino superior no Brasil ser um processo relativamente recente e estar levando para bancos universitários jovens que não só tiveram um ensino básico de má qualidade como também viveram em um ambiente familiar que contribuiu pouco para sua aprendizagem (...) Além disso, muitas instituições de ensino superior privadas acabaram adotando exigências mais baixas para o ingresso e a aprovação em seus cursos e, como consequência, acabamos criando uma escolaridade no papel que não corresponde ao nível real de escolaridade dos brasileiros”, conclui.

Fonte: BBC Brasil

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/10/131004_mercado_trabalho_diplomas_ru.shtml