domingo, 20 de outubro de 2013

O Diploma sem valor (parte 1) – Brasil produz número recorde de bacharéis, mas qualidade técnica e produtividade decepcionam empresários


Por: José Boas

Nas últimas duas décadas o Brasil tem experimentado um crescimento vertiginoso no número de faculdades, estudantes de nível superior e de pessoas com nível universitário entrando para o mercado de trabalho.

Muito embora os números nacionais ainda estejam muito aquém de outros países desenvolvidos e em desenvolvimento, o Brasil poderia comemorar estes resultados como uma grande conquista e um avanço inigualável... Poderia, não fossem as evidentes contradições existentes e que o Ministério da Educação não consegue resolver.

Com educação superior de má qualidade, jovens brasileiros recém-formados são mais de 50% do total de desempregados do país

Somente nos últimos dois anos, mais de oitocentos mil brasileiros receberam algum diploma de nível superior, segundo recentes dados do IBGE, mas “mesmo com essa expansão, na indústria de transformação, por exemplo, tivemos um aumento de produtividade de apenas 1,1% no mesmo período, enquanto o salário médio dos trabalhadores subiu 169%”, diz Rafael Lucchesi, diretor de educação e tecnologia na Confederação Nacional da Indústria (CNI).

A já apelidada “geração do diploma” vem sendo tratada por especialistas como uma grande decepção. Segundo o sociólogo e especialista em relações do trabalho da Faculdade de Economia da USP, José Pastore, “os empresários não querem canudo. Querem capacidade de dar respostas e de apreender coisas novas. E quando testam isso nos candidatos, rejeitam a maioria”.

Em recente pesquisa realizada entre empresários, foi possível detectar que já é normal as queixas dos empregadores com recém-formados em administração incapazes de escrever um relatório ou organizar com o mínimo de qualidade uma planilha orçamentária; ou jovens arquitetos que sofrem para resolver equações simples; ou jovens estagiários em direito que ignoram regras básicas de linguagem. Mas a reclamação mais evidente entre todos os empresários e executivos ouvidos foi a de que os diplomados têm uma dificuldade quase crônica em entender e adaptarem-se às regras e à lógica de um ambiente corporativo. 

Em entrevista ao sítio da BBC Brasil, Maíra Habimorab, vice-presidente do DMRH, empresa especializada em Recursos Humanos, afirma: “Cadastramos e avaliamos cerca de 770 mil jovens e ainda assim não conseguimos encontrar candidatos suficientes com perfis adequados para preencher todas as nossas 5 mil vagas (...) Surpreendentemente, terminamos com vagas em aberto”.

Pesquisa realizada ano passado revelou que 38% dos estudantes de nível superior no Brasil são analfabetos funcionais
Segundo outra empresa da área, o Grupo de Recursos Humanos Manpower, de trinta e oito países pesquisados, o Brasil é o segundo mercado em que as empresas têm mais dificuldade para encontrar talentos, atrás apenas do Japão. A grande diferença é que lá há uma altíssima especialização da mão de obra e os bons profissionais são disputados pelas principais empresas; já no Brasil a escassez deve-se, notadamente, pela baixa qualidade oferecida pelos profissionais saídos dos bancos das instituições de ensino superior.

A má qualidade desta oferta já vem sendo registrada pelos institutos de pesquisa oficiais. Segundo dados recentes do Ipea, por exemplo, os brasileiros com mais de uma década dedicada aos estudos são responsáveis por mais da metade do atual contingente de desempregados no país.

Mesmo com essa expansão do ensino e maior acesso ao curso superior, os trabalhadores brasileiros não estão conseguindo oferecer o conhecimento específico que as boas posições requerem”, explica Márcia Almstrom, do grupo Manpower.
Fontes:

BBC Brasil

IBGE
www.ibge.gov.br