segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Manari - PE - Um retrado do Brasil coronelizado

"Dar esmola, seu doutor, a um homem que é são, ou lhe racha a cara de vergonha ou vicia o cidadão" (Luiz Gonzaga)

Por: José Boas
 
O Bolsa Família é tido por muitos como o principal trunfo do atual governo para se manter no poder após as próximas eleições de 2014. Em muitos locais ele é a única fonte de recursos que as pessoas dispõem para ir ao mercado e comprar bens de necessidade básica.

Assim como em Manari-PE, em todo o Brasil as pessoas que recebem o Bolsa Família votam por gratidão e por medo. É um coronelismo moderno que segue a mesma receita de sempre: vicia o eleitor com o dinheiro fácil e incute-lhe o medo de perder o benefício caso o poder mude de mãos


Olhando de longe, parece ser um grande trunfo de luta contra a miséria, mas ao se observar mais de perto, nota-se nitidamente que tal benefício é, na realidade, uma arapuca com duas finalidades básicas: 1) criar nas pessoas que participam do programa o sentimento de desamparo assistido, de benefício garantido por um ente benéfico, e; 2) garantir dessas pessoas, agradecidas pelo auxílio, o voto condicionado nas próximas eleições, sejam elas municipais, estaduais ou nacionais.

Exemplo bem claro está em Manari-PE, cidade localizada há 360 Km a sudeste do Recife. Esta cidadezinha de pouco menos de vinte mil habitantes, tem um dos piores IDH do Brasil. Na última década a cidade subiu dezoito posições no ranking brasileiro de municípios. Seu índice cresceu 65%, passou de 0,295, em 2000, para 0,487 no último senso do IBGE, mas ainda é o único município com desenvolvimento "muito baixo" (até 0,499) em todo estado de Pernambuco

Bolsa Família - Lá a segurança do Bolsa Família tem um significado tão forte que rivaliza até mesmo com um emprego com salário bem mais alto. Quando o repórter Lourival Sant'Anna, enviado especial do Estadão estava na Secretaria de Assistência Social, uma mulher veio perguntar se, uma vez aceitando um emprego com carteira assinada no Espírito Santo, o seu cartão do Bolsa Família, que vence em breve, não seria renovado. O funcionário respondeu que sim. A mulher, que tem um filho, disse ao Estado que então provavelmente não aceitaria o emprego. "Depois volto e fico sem cartão ... Não quero ficar sem o cartão."

A mulher, que pediu para não ser identificada, disse que o salário oferecido era de R$ 700, para trabalhar de empregada doméstica. Ela recebe R$ 150 do Bolsa Família, e mais R$ 60 por mês como empregada doméstica em Manari - onde salários tão baixos são comuns. O funcionário contou que frequentemente as pessoas em Manari rejeitam empregos com receio de perder o Bolsa Família.

Evasão escolar - São quinze horas de uma quarta-feira. É hora da merenda na escola municipal onde Josean cursa o 4° ano, na zona rural de Manari. Mas o menino de 12 anos está dando milho para um cavalo, no sítio da família. "Não fui (à escola) hoje porque fui tanger gado", explica ele.

A tarde na escola de Josean trocada pelo trabalho na roça revela em parte a dificuldade de Manari de evoluir ainda mais depressa. A taxa de matrícula nas escolas aumentou de forma muito expressiva, em todas as idades, mas o índice não foi melhor porque, a partir dos 15 anos, ainda houve forte evasão na década passada.

Entre 2000 e 2010, a fatia de crianças de 11 a 13 anos frequentando os anos finais do ensino fundamental saltou de 13,7% para 71,8%; já a de adolescentes de 15 a 17 anos com o fundamental completo subiu de 3,6% para 23,7%.

Nesta década, a tendência está mudando, e os índices de evasão estão caindo também entre os adolescentes. Mas, de acordo com os secretários de Educação e Assistência Social, diretores de escola e professores, os adolescentes que deixam a escola antes de concluir até mesmo o ciclo fundamental (9° ano) são aqueles cujos pais, talvez como os de Josean, veem o futuro dos filhos vinculado ao trabalho no campo.

 Problemas - como apresentado em outras matérias n'O RESTAURADOR, o problema maior reside não nos anos cursados pelos jovens de Manari-PE, mas qua baixíssima qualidade da educação oferecida e na falta de incentivos ao aprendizado e ao conhecimento.

Existe uma política de números maquiados em tudo isso, como visto em outras matérias... ela é sutil e esconde uma realidade perversa: em muitos casos, os jovens completam os dois primeiros ciclos (até o 9° ano) com várias deficiências de aprendizagem e isso será notado dentro das faculdades, onde 38% de nossos estudantes são analfabetos funcionais. Em outras palavras, o atual governo gradua nossos jovens sem efetivamente qualificá-los como cidadãos e como trabalhadores, criando a falsa sensação de desenvolvimento e de conquista, mas que só existe nas estatísticas do MEC.

Muito embora já pertença há uma década dos programas assistenciais estatais, Manari-PE ainda aprensenta baixíssimos índices de desenvolvimento, o que denuncia que o volume de recursos - a despeito de ser alto - vem sendo muito mal aplicado, evidenciando o uso político por parte dos governantes em todas as esferas de poder

Prova disso é que o contingente de analfabetos totais e funcionais está estagnado e que os empresários relutam em contratar recém-formados da maioria dos centros universitários e faculdades existentes no Brasil simplesmente porque eles carregam consigo deficiências que contradizem o título que receberam ao término do curso.

Se o atual governo fosse um produtor de vinhos, ele estaria gastando parte significativa de seu orçamento contratando publicitários para enfeitar o rótulo e a garrafa, mas deixando de lado o parecer dos enólogos para que a qualidade do vinho seja melhorada em igual proporção... se olharmos apenas para o "nosso" vinho, teremos a falsa percepção de que ele melhorou, mas se o compararmos com as adegas "dos outros", acabaremos por notar que nada mudou: O Brasil continua a ser um dos últimos colocados em qualidade de educação básica, que pioramos no ranking de inovações tecnológicas, que não contamos mais com nenhuma universidade entre as 200 principais do mundo, que caímos no ranking de publicações científicas relevantes...

Reflexos - onde isso tem seus reflexos mais sentidos? Na economia e na segurança.

Na economia porque, mesmo com uma formação teoricamente mais adequada, as pessoas não conseguem se firmar no mercado de trabalho, pulando de empresa em empresa sem atender às demandas mais básicas exigidas.

Manari integra o polígono da maconha em Pernambuco - são comuns as ações policiais para destruir plantações da droga nos sítios da região

Na segurança porque Manari-PE está na rota de produção e comercialização do chamado Polígono da Maconha no Nordeste do Brasil, o que transforma toda a população em refém de produtores e contrabandistas da droga. A possibilidade de aliciamento de jovens desqualificados para o contrabando é muito mais alta do que em qualquer outro lugar... sem ações efetivas que ataquem com firmeza estes dois campos, toda e qualquer ação não passará de pirotecnia.

Fontes:

Estadão

http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,moradores-tem-medo-de-aceitar-emprego-e-perder-o-bolsa-familia,1067469,0.htm

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,manari-luta-para-frear-evasao-escolar,1065186,0.htm

 Vila Bela FM

http://portal.vilabelafm.com.br/noticias/mais-de-mil-pes-de-maconha-sao-erradicados-em-manari-no-sertao