segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Síndrome de Salomão - uma releitura


este texto é uma revisão de um texto escrito há mais de dois anos... e que parecia profético
Por: José Boas


O senso comum costuma tratar Salomão, filho de Davi, como um rei sábio, mas a própria Torah - no livro de Reis - dá ênfase a outra faceta do monarca: um indivíduo perdulário, vingativo e desequilibrado que arrasou as contas públicas em favor de ostentações desnecessárias e auto-referência.

Sua maior obra, o Templo de Jerusalém, não somente secou todas as reservas econômicas do reino, mas endividou o erário, aumentou a taxação sobre a renda e a produção, indo muito além do dízimo (10%) de Davi e instituiu a corveia... escravizando seu povo, que segundo Moisés não seria mais escravo de ninguém (!). No final das contas, o Templo, que deveria ser uma reprodução do tabernáculo do deserto para guardar a Lei Mosaica, se tornou um suntuoso palácio em homenagem ao ego e um monarca megalômano, destinado à visitação de pouquíssimas pessoas, coberto por mármore e ouro que refletia tão somente o sangue do povo que o construiu.

Foto: www.mises.org.br
 
Por mais incrível e anacrônico que pareça esta é também a atual situação do Brasil, país onde o governo, para fazer frente a políticas que privilegiam a ineficiência de alguns setores da economia e o assistencialismo populista estéril, dilapida as contas públicas. As desculpas para isso são das mais variadas, mas os grandes trunfos são sempre os mesmos: uma pretensa “igualdade”, “direitos sociais” mal explicados e um tal “estado de bem-estar” que vilipendia e distorce qualquer princípio desenvolvido pelas teorias de Keynes.

Ora, não precisa ser um gênio da economia para saber que um governo tem poucas saídas para honrar a dívida pública:

a primeira e mais sensata: parar de gastar e administrar melhor seus recursos, mas isso os governos da república – desde 1889 – parecem não muito dispostos a fazer;

 a segunda: expandir o meio circulante - o que causa inflação, ou;

a terceira: aumentar os impostos - o que onera a produtividade e compromete a competitividade.

O Brasil, há duas décadas, tem tomado as duas últimas vias ao mesmo tempo, ora com maior ênfase a uma ora a outra. Via de regra sua política monetária tem se mostrado completamente irresponsável, perdulária e ineficaz.


Somemos a isso uma gangorra no mercado de moedas que só gera especulações e incertezas, pois se há dois anos o governo brasileiro descabelava-se para comprar dólares e lastrear nossa economia, valorizando o Real e vendendo ao povo brasileiro uma falsa impressão de desenvolvimento, hoje faz exatamente o contrário: joga dólares no mercado para que o Real não se desvalorize... Em suma, estamos trocando o resultado de nossa força produtiva por papel colorido e nos achando ricos e espertos por conta disso! 

A remuneração de setores improdutivos e ineficientes da sociedade, quer seja pelo assistencialismo populista ou pela concorrência artificial no mercado externo, criam um suntuoso sentimento de desenvolvimento econômico e social que, na realidade, é uma bomba-relógio sem cronômetro... todos sabem que vai explodir, mas ninguém pode dizer exatamente quando isso ocorrerá.

Todo esse falso sentimento de crescimento e desenvolvimento - um Templo das Maravilhas segundo os governantes pós-Real - sustentado à base do endividamento público galopante e do recorrente perigo da escalada inflacionária, atinge de maneira esmagadora exatamente quem mais garante e existência de uma economia e de uma Nação - seu povo e sua real  força produtiva.

Há alguma solução?! Sim, sempre há, mas ela depende de ações corajosas que - por enquanto - nossos governantes parecem não ter ânimo a tomar.

1. Exigir de cada um assistido por qualquer programa assistencial do Estado o devido emprenho, a busca por qualificação intelectual e profissional para que retorne ao mercado de trabalho;

2. Restringir o período de assistência aos que recebem qualquer ajuda financeira advinda do Estado (desde municípios até a União), deixando bem claro que o Estado não é seu mantenedor ad aeternum;

3. Diminuir e realocar os gastos públicos, ao passo que se redistribui, gradativamente, a arrecadação de taxas e impostos para estados e municípios, descentralizando as tomadas de decisão e a aplicação de recursos, e ;

4. Parar de financiar a inflação de outros países e blocos econômicos com recursos nacionais.

A grande questão é: mergulhados que estão nossos governantes no próprio canto de sereia do desenvolvimento e estabilidade econômica atuais, vão querer reorganizar a matriz do sistema financeiro?; atolados até o pescoço em vícios administrativos que fedem ao mais baixo coronelismo, vão querer assumir uma postura tão democrática?; referendandos que estão pela política panis et circenses, vão querer tomar alguma medida enérgica que desagrade suas bases eleitorais??!!

Para fazer frente a uma crescente dívida pública, a carga tributária sobre o povo brasileiro aumenta anualmente, batendo recordes. Em 2012, chegou à casa dos 36,27% do PIB
 
Entre populismos, megalomanias e egocentrismos, corremos o risco de, no Brasil do Século XXI, experimentarmos o amargor das consequências da má administração tal qual a de Salomão... e vermos surgirem falsos mitos, pretensos sábios, cunhados sobre figuras que, no final das contas, só se preocupam com as luzes da ribalta voltadas para si.