segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O símbolo de uma república acéfala

Por: José Boas

N
o último dia 07 de setembro fui fazer uma coisa que não fazia desde meus tempos de estudante da Escola Estadual Dom Bosco – lá em Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso: fui ao desfile militar. Armei-me com minha bandeira imperial, mil e quinhentos panfletos e muita coragem. Foram comigo minha esposa e minha filha que havia completado seis anos um dia antes... nos acomodamos como pudemos em uma das cercas e comecei a distribuir os panfletos.

Sem querer, o carro presidencial se tornou síntese da república, que segue sem comando, à deriva e acéfala
Meu primeiro susto: a primeira música a ser executada pela tradicionalíssima banda dos Fuzileiros Navais, criada ainda quando nossa Marinha era a segunda maior do mundo e temida em todos os mares, não foi o Hino da Independência, mas “o show das poderosas”. Era o sinal de que Dilma Roussef estava chegando! Ora, uma pessoa que se quer chamada Chefe de Estado e de Governo relegando ao segundo plano os símbolos nacionais?! Mas... os tempos são outros e as bundas substituíram os cérebros em grau de importância... toquemos!

O segundo susto: a Esplanada dos Ministérios estava vazia. O Exército e a Polícia Militar haviam se preparado para receber trinta mil espectadores... não compareceu nem a metade disso para assistir a um desfile que custou aos cofres públicos quase um milhão de Reais!

Meu terceiro e maior susto: ao contrário de qualquer outro líder nacional antes dela, até mesmo nos piores momentos, Dilma não seguiu todo o trajeto para cumprimentar as pessoas que foram até a Esplanada. O carro oficial seguiu com ela por pouquíssimos metros, do Palácio do Planalto até o palanque das autoridades, e depois... bem, depois seguiu vazio, sob vaias da plateia, até parar entre arquibancadas igualmente vazias no final da avenida.

Eis o símbolo mais evidente dos momentos que vive esta república: assim como o carro presidencial ela – a república – segue sem líder, vazia, acéfala, sob as vaias do povo que assiste tudo de arquibancada, sem nada entender.

Dilma solenemente abandonou o carro como vem abandonando a Nação, deixou o povo que a aguardava sob o sol para se juntar aos seus partidários guardados à sombra, com água mineral importada e frutas frescas à mesa; virou as costas aos milhares que a vaiariam pela dúzia de puxa-sacos que a aplaudem... e o carro presidencial seguiu vazio por toda a Esplanada!

Assim como nasceu, sem sentido e alheia ao que realmente esperava o povo, esta república demonstra-se até hoje à deriva, acéfala, mesmo que ocasional e aparentemente sob algum comando; como o carro presidencial, igualmente à deriva, segue em frente porque alguém – o assalariado motorista – lhe aperta teimosamente o acelerador para chegar a um destino também sem razão de ser; a república, à deriva, segue porque o povo teimosamente a toca, como um corpo sem cabeça, pagando com seu suor e diuturno trabalho uma carga tributária escravizadora (a maior do mundo!) que bate à casa dos 40% de sua renda; seguem à deriva, acéfalos e sem comando o carro presidencial e a república até pararem entre arquibancadas vazias de povo, vazias de gente que lhes dê valor, vazias de legitimidade... o carro presidencial resumiu, neste 07 de setembro, os últimos 124 anos da História do Brasil: por um momento sob um comando, mas na maioria de seu trajeto acéfalo, entregue à própria sorte, à deriva e sem um destino seguro.