domingo, 22 de setembro de 2013

Brasil, o país que saiu dos trilhos!


Por: José Boas

Lendo o mais recente relatório da Confederação Nacional do Transporte – CNT – sobre as ferrovias no Brasil, publicado este ano, podemos chegar rapidamente a duas fatídicas conclusões: . o Brasil está há quase cento e vinte e cinco anos fazendo pouco do mais eficiente e econômico sistema de transporte de riquezas que existe no mundo – as ferrovias – preferindo investir rios de dinheiro em rodovias: o pior, mais caro, ineficiente e perigoso modelo que existe; . derivada da primeira, nos conta uma triste história... a de que, para agradar as montadoras de veículos e as empreiteiras (grandes patrocinadoras das campanhas eleitorais dos políticos profissionais), nosso dinheiro é jogado – literalmente – na lata do lixo (ou no bolso dos espertalhões eleitos).

Como podemos ter esta certeza? Simples! Basta voltarmos um pouco na História...

O Brasil sempre quis construir linhas férreas. Desde a Independência houve várias tentativas de se ter este modelo de transporte por aqui, mas somente em 1854 conseguimos ter nossos primeiros quinze quilômetros de trilhos inaugurados.

Mesmo assim estávamos muito mais avançados que a maioria dos países europeus da época... a partir de então, até 1889, o Brasil não parou de investir mais em estradas de ferro. Até o ano do golpe da república havíamos contratado obras que totalizavam 18.500 quilômetros viários, sendo 9.500 quilômetros em pleno uso e outros 9.000 em rápida construção. Éramos, enfim, a segunda maior malha ferroviária do hemisfério sul, ficando atrás apenas do Império Britânico que punha locomotivas a rodar na Índia, China e Austrália.

Locomotiva da estrada de ferro Madeira-Mamoré: símbolo do descaso governamental e do desperdício de dinheiro público na república

Mas o que fez a terceira maior potência ferroviária do século XIX – ficando atrás apenas da Inglaterra e dos EEUUA – se transformar nisto que vemos hoje? A resposta vem-nos como um soco na cara: a demagogia, o aventurismo e a falta de caráter de uma série desastrosa dos que tiveram – e têm – a chave dos cofres públicos nas mãos.

A construção da Ferro-Norte é o exemplo mais claro de todo este descaso. Lançada em 1992 (há vinte e um anos!), hoje não atinge sequer metade de sua extensão; o maior centro produtor de grãos do Brasil – o Vale do Verde, no Mato Grosso – depende de caras e perigosas rodovias para escoar suas riquezas; o produtor desta região gasta, no mínimo, 100% mais com transporte para portos que estão há dois mil quilômetros de suas lavouras, sendo que em Santarém-PA – metade da distância – há um porto que poderia muito bem escoar toda produção regional até o Porto de Vila do Conde-PA e, daí, ao Atlântico e o mundo.

Outra saída seria ligar Lucas do Rio Verde-MT a Uruaçu-GO, por uma ferrovia de pouco menos de 900 quilômetros que se interligariam à ferrovia Norte-Sul... entendamos muito bem: se interligariam (!) pois esta, criada por José Sarney em 1987 quando ainda era presidente da república, muito timidamente chegou ao Tocantins, estando longe de ser minimamente útil ao Mato Grosso e ao Brasil.

Quanto custaria para por hoje nossas ferrovias “nos trilhos”? Segundo a Confederação Nacional do Transporte – CNT – o valor está estimado em torno de R$ 25 bilhões, ou seja, menos que o orçamento da Copa do Mundo de 2014... logo, o atual governo está trocando quarenta anos de desenvolvimento por um mês de futebol. Isso mesmo!

Acima: dados comparativos entre os transportes ferroviário e rodoviário

O relatório da CNT deixou bem claro no papel o que todo brasileiro que produz e emprega já sabe há muito na prática: não são os concorrentes externos, a natureza, a falta de vontade, a cultura ou qualquer outra coisa que mais trama contra si e sua empresa... não! ... o maior inimigo do produtor brasileiro (do campo ou da cidade) só tem um nome: a República Federativa do Brasil, que lhe toma 40% de seu movimento bruto em impostos, que lhe multa caso não cumpra uma legislação sufocante, que lhe encarece a produção e, consequentemente, lhe diminui o mercado interno e externo e... que lhe oferece um retorno nulo.

E assim vamos lentamente, de lobby em lobby; de eleição em eleição; de promessa em promessa; de demagogia em demagogia... assim vamos sustentando grupelhos que pouco ou nada têm conosco senão a vontade de meter a mão em nossos bolsos para garantirem pagos os seus interesses e luxos pessoais.

Até quando?