quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Dom Pedro II, por Affonso Arinos, aos oito anos depois do Golpe da República


Rio de Janeiro de 02 de Dezembro de 1897

"O desgosto profundo que lhe abalou a alma, quando, há oito annos, o expulsou do Brasil o motim dos quartéis ; a agravação consequente da sua saúde de velho, gasta abnegadamente, durante mais de meio século, em serviços inolvidaveis á terra da pátria ; e, mais, a ingratidão com que muitos retribuiram os beneficios de seu coração fora sempre prógido - tudo occorreu para apressar o fim daquella vida por tantos títulos preciosa.

Banido sem piedade, no declínio da existencia, do império que sabiam ente governára por tantos longos annos, ao ponto de elevar o país ao nivel de engrandecimento que o tornava respeitado por todas as nações ; não tendo jamais consentido na menor affronta ao nosso brio, nem á nossa honra, e, ao contrario, procurando sempre impôr o nome brasileiro á consideração do mundo civilizado de além oceano - banido, depois de desthronado, pela grandeza do seu coração que não consentira se derramasse em sua defesa o sangue dos brasilerios ; banido, sem a menor resitencia, afim de que um periodo, então anormal, de guerra fraticida - elle, entretanto, exilado em terra extranha, não teve nunca uma palavra, um gesto de maldição para aquelles que inauguravam na pátria um regimen de revolução, de morticidios, de descrédito e de corrupção social.

NÃO; e se palavras lhe brotaram dos lábios augustos em que relação ao novo regimen de desgoverno republicano, essas foram apenas de lástima para com os dominadores que mal entreviam no horizonte político as tempestades que elles próprios preparavam.

NÃO; e se palavras teve o soberano quando a morte se acercou de seu leito, essas foram para pedir, aos amigos que o rodeavam, um punhado de terra brasileira para nella repousar sempiternamente.

Não fosse o levante militar de oito annos atraz, e hoje o Brasil inteiro festejaria o anniversario natalício de D. Pedro II.

Há nove annos na data de hoje, milhares de galões e de passamanes de ouro reluzentes resplandeciam nos salões do paço da cidade.

No cortejo, curvam-se muitas espinhas dorsaes dos mesmos que emborcaram, mais tarde, nos salões do Itamaraty ou nos palacetes Friburgo. Póde dizer-se até que as curvaturas nos cortejos da República são mais profundas, devido naturalmente, á influência que o esplendor dos salões do novo regimen, opulentamente mobiliados, exerce nos espíritos facilemtne arratáveis pela grandeza e pelo luxo.

Uma differença, porém se deve notar. Nos velhos salões pobres e quasi nus do Paço imperial. palpitava a grandeza do passado. Os olhos, não tendo que occupar-se com a riqueza escandalosa e cantante que a democracia de agora esparramou nos solares presidenciaes, podiam contemplar o aspeito venerável dos velhos e cujas as espadas tinham nas laminas refuldentes, gravada em caracteres côr de prata o lemma : - "Viva o Imperador! "

Este lemma, repetido pelas bocas dos soldados em brados enthusiasticos, deu-nos as victorias de Humayta, de Riachuelo, do Monte Caseros, de Tuyuty, Paysandú, Toneleros e tantas outras. A bandeira que então tremulava serenamente ás auras da victoria, nas ameias dos baluartes inimigos, foi arrancada do quartel general a 15 de novembro de 1889. Ahí onde ella cahiu limpa de morticidios sombrios e virgem das degollas cobades.

Ella não presidiu á pavarosa hecatombe de brasileiros sem crime, ella não se repoxou de horror ao estripamento de pobres mães sertanejas ; ella não teve volúpias de Herodes no sacrificio millenario dos inocentes ; ella foi auriflamma que congregou os brasileiros nos dias de perigo, quando a honra e os brios da pátria exigiam de seus filhos a desaffronta pelas armas ; ella cobriu os brasilerios com a calentura de um manto imperial.

Foi a sombra dessa bandeira que o verbo de José Bonifácio teve accentos de elonquencia subliminada ; foi ella que Castro Alves cantou ; foi ella que morreu Willagran Cabrita, por ella pelejaram Porto Alegre e Tamandaré inspirou o alevantado espirito de Bernardo de Vasconcellos, a energia de Feijo o gênio de estadista como Eusébio, Paraná, Rio Branco, Itaboray, Nabuco, Zacharias, Belisário e Cotegipe
.
Afagados por esta bandeira, Alencar e Gonçalves Dias glorificaram as lettras, Laffayete, Teixeira de Freitas e Nabuco elevaram a nossa cultura jurídica.

Foi a sombra dessa bandeira que o chefe dos jornalistas repúblicanos Quintino Bocayuva, adestrou a pena.

Protegidas por ella, cresceram e prosperaram a nossa lavoura e a nossa industria; o nosso crédito no extrangeiro chegou a posição do das maiores nações do mundo ; o rio Amazonas se abriu ao comercio do globo ; as estradas de ferro estenderam no nosso território suas fitas de aço ; fundaram-se escolas e academias.

O que nos deu até agora a bandeira, em oito annos, a bandeira marca-cometa? A pobreza, o descredito, o odio e o lucto.

Consolemos-nos, porém, porque, cedo, dias felizes virão novamente para tranquilidade da familia brasileira e a grandeza da pátria.

Então, poderemos levantar uma estatua de bronze ao saudoso Monarcha, para que o bronze corporoifique numa praça publica aquelle que a saudade indelevelmente gravou no nosso coração."

Pela ponta da pena de Affonso Arinos.