segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Autobiografia escrita por ex-escravo que viveu no Brasil ganhará tradução em 2015



Por: Leonardo Vieira, Jornal O GLOBO

Que aqueles ‘indivíduos humanitários’ que são a favor da escravidão se coloquem no lugar do escravo no porão barulhento de um navio negreiro, apenas por uma viagem da África à América, sem sequer experimentar mais que isso dos horrores da escravidão: se não saírem abolicionistas convictos, então não tenho mais nada a dizer a favor da abolição.
(Mahommah Gardo Baquaqua)

 
Embora comum nos Estados Unidos, autobiografia de ex-escravo que viveu no Brasil é única e se torna instrumento fundamental para se entender melhor o período

As palavras são de Mahommah Gardo Baquaqua, ex-escravo nascido no Norte da África no início do século XIX e que trabalhou no Brasil antes de fugir das amarras da servidão em Nova York, em 1847. O trecho consta do livro “An interesting narrative. Biography of Mahommah G. Baquaqua” (“Uma interessante narrativa: biografia de Mahommah G. Baquaqua”, em tradução livre), lançado assim mesmo, em inglês, pelo próprio ex-escravo, em Detroit, no ano de 1854, em plena campanha abolicionista nos EUA. A obra jamais foi traduzida para o português, permanecendo desconhecida do público brasileiro.

No entanto, com apoio do Ministério da Cultura e do Consulado do Canadá, o professor pernambucano Bruno Véras, de 26 anos, resolveu se debruçar sobre o documento, ajudado por outros dois pesquisadores. Ele viajou ao Canadá, onde buscou vestígios de Baquaqua e consultou os originais do livro, cuja primeira edição em português deve ser lançada no Brasil até o fim do ano que vem.

Baquaqua sempre foi um personagem que me intrigou. Ele escreveu a única autobiografia de um africano escravizado em terras brasileiras. Nos EUA e na Inglaterra existem vários desses relatos, que tinham uma função abolicionista. No Brasil, só um. E, apesar disso, Baquaqua não é conhecido em nossa História nem em nossos livros didáticos”, conta Véras.

Professor Bruno Véras, da UFPB: "Abolicionistas incentivavam ex-escravos a escrever relatos do cativeiro e mobilizar a opinião pública. Nada melhor do que o próprio escravo para contar como era a escravidão"
 
Os historiadores Paul Lovejoy e Robin Law, por exemplo, republicaram o livro nos anos 2000, ainda no idioma de Shakespeare. Segundo consta dos registros da edição original, parte da obra foi ditada para o escritor Samuel Moore, responsável também por editar a história do escravo.

A trajetória extraordinária desse personagem começa nos anos 1820, em Dijougou, onde hoje é o Norte do Benim. Filho de um proeminente comerciante, o pequeno Mahommah Baquaqua estudou em uma escola islâmica para ter acesso ao Corão, adquirindo conhecimentos de leitura e de matemática. Suas habilidades logo lhe permitiram atuar em importantes rotas comerciais que ligavam o então califado de Socoto e o extinto Império Ashanti, que rivalizavam no tráfico de escravos e no domínio de regiões da África Ocidental.

Baquaqua foi preso e feito escravo pelos Ashanti enquanto vendia grãos, noz de cola e outras especiarias para o front de guerra. Mesmo sendo recomprado e libertado pelo seu irmão, acabou novamente detido pouco tempo depois por tentar roubar e ingerir bebida alcoólica perto de Dijougou, algo próximo a um pecado capital para uma localidade dominada pelo Islã.

Baquaqua não pôde contar com a sorte daquela vez. Novamente escravizado, foi levado para a cidade litorânea de Uidá, importante porto de onde saía grade parte dos cativos destinados ao Novo Mundo. É a partir desse ponto que a autobiografia ganha seus contornos mais emocionantes:
Quando estávamos prontos para embarcar [para as Américas], fomos acorrentados uns aos outros e amarrados com cordas pelo pescoço e, assim, arrastados para a beira-mar. Uma espécie de festa foi realizada em terra firme naquele dia. Não estava ciente de que essa seria minha última festa na África. Feliz de mim que não sabia”.
(Mahommah Gardo Baquaqua)

Se, antes, os brasileiros tinham conhecimento do ambiente de um navio negreiro por meio das descrições de historiadores ou de famosos poemas como o de Castro Alves, agora poderão ter um relato vivo de uma testemunha de um dos piores capítulos da História da humanidade:
Fomos arremessados, nus, porão adentro, os homens apinhados de um lado, e as mulheres de outro. O porão era tão baixo que não podíamos ficar de pé, éramos obrigados a nos agachar ou nos sentar no chão. Noite e dia eram iguais para nós, o sono nos sendo negado devido ao confinamento de nossos corpos.
(...)
Houve um pobre companheiro que ficou tão desesperado pela sede que tentou apanhar a faca do homem que nos trazia água. Foi levado ao convés, e eu nunca mais soube o que lhe aconteceu. Suponho que tenha sido jogado ao mar...
(Mahommah Gardo Baquaqua)

Comida e bebida eram escassos na viagem, havendo dias em que os escravos não ingeriam absolutamente nada.

A incrível jornada de Baquaqua, do Benin a Liverpool, passando por Pernanbuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Nova Iorque e Detroit
  
Pernambuco foi o destino do navio que levava nosso personagem, que desembarcou em 1845. De início, foi levado para uma lavoura nos arredores de Olinda, onde conheceu a dureza da escravidão brasileira: “o fazendeiro tinha grande quantidade de escravos, e não demorou muito para que eu presenciasse ele empregando livremente seu chicote contra um rapaz. Essa cena causou-me uma impressão profunda, pois, é claro, imaginei que em breve seria o meu destino”. 

Baquaqua tratou da violência do senhor, chamando-o de “tirano”. Trabalhando como padeiro, o escravo inicialmente prestava os serviços com dedicação, mas ao ver que seu "patrão" nunca ficava satisfeito, entregou-se às bebidas e evitou o serviço. Acabou revendido para outro comerciante, desta vez no Rio de Janeiro.

“Meus companheiros não eram tão constantes quanto eu, sendo muito dados à bebida e, por isso, eram menos rentáveis para o senhor. Aproveitei disso para procurar elevar-me em sua opinião, sendo muito prestativo e obediente, mas tudo em vão; fizesse o que fizesse, descobri que servia a um tirano e nada parecia satisfazê-lo. Então comecei a beber como os outros e, assim, éramos todos da mesma laia, mau senhor, maus escravos.”
(Mahommah Gardo Baquaqua)

Na capital do Império, devido aos seus conhecimentos de matemática e literatura, o escravo atuou dentro de um navio especializado no comércio de charque entre o Rio Grande do Sul e a Corte.

Mas foi uma encomenda de café para Nova York que mudou sua vida completamente. Naquela época, os estados do Norte dos Estados Unidos já tinham abolido a escravidão, fato que não passou despercebido por Baquaqua. “A primeira palavra que meus dois companheiros e eu aprendemos em inglês foi F-R-E-E (L-I-V-R-E); ela nos foi ensinada por um inglês a bordo e, oh!, quantas e quantas vezes eu a repeti.

Baquaqua tentou fugir do navio ao desembarcar em Nova York, mas logo acabou preso. Com a ajuda de abolicionistas locais, o escravo conseguiu escapar da prisão e rumou para o Haiti. Ficou por lá durante dois anos, período em que se converteu ao cristianismo, ingressando na Igreja Batista Abolicionista. De volta aos Estados Unidos, em 1850, o já liberto africano frequentou aulas de inglês por três anos no Central College, numa localidade então conhecida como MacGrawville, hoje parte de Nova York.

História similar - Mas foi em Detroit que Baquaqua publicou seu livro, numa tentativa de arrecadar fundos para a campanha abolicionista. A autobiografia - chave do seu engajamento na luta abolicionista (que o levou até mesmo à inglesa Liverpool, em 1857, último lugar onde se teve notícia de Baquaqua) - é contemporânea e guarda similaridade com a de Solomon Northup. Americano nascido livre e escravizado no Sul dos Estados Unidos, ele teve sua obra adaptada para o cinema em 2013, com o título “Doze anos de escravidão”. O filme americano venceu o Oscar em três categorias, inclusive a de melhor longa-metragem.

Foto original de Baquaqua, já liberto, nos Estados Unidos

O contexto em que o livro de Solomon Northup foi publicado é o mesmo do de Baquaqua. Abolicionistas incentivavam ex-escravos a escrever relatos do cativeiro e mobilizar a opinião pública. Nada melhor do que o próprio escravo para contar como era a escravidão”, afirmou Véras, que também trabalha para lançar um site somente sobre o ex-escravo, reunindo vídeos, fotos e arquivos de época.

Essa fascinante história também virou tema de um pequeno documentário em 2012, produzido por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em parceria com professores da rede de ensino do estado. Paulo Alexandre, conhecido nacionalmente por reproduzir os principais acontecimentos da Segunda Guerra Mundial no Facebook, foi um dos que participaram da produção.

Segundo ele, o personagem pode ser trabalhado em sala de aula como uma história de superação e de luta contra os estereótipos em torno do escravo:

"Meus alunos ficam impressionados quando lhes conto sobre Baquaqua, pois todos tinham aquela velha ideia de escravo submisso, aquele indivíduo sem nome nem identidade, que só sabia apanhar e trabalhar. Ninguém imagina que ele poderia ser uma pessoa inteligente, empreendedora, que consegue a liberdade a partir do próprio esforço".
 
Fonte: Jornal O GLOBO - A História de Mohamad Baquaqua

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

1889: O ano, o livro e o legado



Por: Andrew Amaral

A história não se cansa de se repetir. E os enredos, embora se pareçam, grosso modo distintos uns dos outros, têm o viés da similaridade incutido em seu seio. Forçosamente nos distanciamos de uma reflexão holística da humanidade, que desde o Jardim do Éden, tem sido vítima e autora dos mesmos pecados e das mesmas veleidades, para justificarmos aquilo que ansiosamente necessitamos definir. Neste contexto a explicação do que foi a instauração da República, sob o ângulo do que havia sido o ano de sua proclamação, traz à historiografia um grande dilema a ser retratado. Embora não sendo, nem pretendendo ser, historiador, julgo que nenhuma explicação ainda foi plausível a ponto de definir, sem margens ilusórias de erro, o que realmente motivou um grupo de pessoas, a principio “bem intencionadas”, porem a termo, aquele que foi um dos maiores Impérios da humanidade (mais precisamente o 11°em extensão territorial).

Ruy Barbosa, quiçá o mais arrependido de todos os republicanos, chegou a viajar à França para suplicar o perdão de Dom Pedro II
 
Um Império de contradições, é claro. Pois em contradições caminha a humanidade. Machado de Assis, a maior referência da literatura brasileira, folgava em criar personagens que personificavam a essência banal e contraditória do ser humano, incorporando um tanto de brasilidade as geniosas manifestações de seu tempo. Ele criticou o Brasil que tinha títulos de nobreza, mas também o Brasil que extinguiu, apenas nominalmente, os privilégios de nascença.

Nossa nação, ainda como hoje, era tida como um país exótico no continente americano (embora os motivos da consideração tenham se alterado ao longo do tempo). Único a conservar um “modelo” de sociedade e sistema de governo tipicamente europeu, também era o único que amalgamava um misto de raças, credos e costumes sob a batuta de um mesmo maestro, Dom Pedro II. A unidade, outrora tão questionada e combatida, foi mantida graças à necessidade de manutenção de um trono que tinha uma história de grandeza a ser zelada. Nenhum outro chefe de estado gozou, nem gozará, em ter a seu dispor tanto tempo de governo e apreciação popular. Mas, contraditoriamente, tudo isto não foi suficiente para que o trono edificado pelo pai da Independência fosse mantido geração após geração.

Dona Isabel do Brasil: carola ou vítima da intolerância positivista de Augusto Comte?
 
Laurentido Gomes, hoje conhecido jornalista, ao arrematar a trilogia (1808, 1822 e 1889), traz novidades que surpreendem, mas que não justificam o ocaso tão melancólico do Império do Brasil. E talvez nossa consciência histórica (digo como um todo) esteja tão viva quanto àquela que foi o pomo da discórdia entre o político Silveira Martins e o coveiro da monarquia brasileira, a baronesa do Triunfo (triunfo de um rancor irreconciliável, que perdurou por toda uma vida). Fica evidente que a proclamação República, ao contrario de seus militantes, não tinha consciência da sua própria existência, no momento, que de fato, ela já respondia pelo governo e pelo destino do Brasil. Haja vista foi preciso que uma marionete encenasse a derrubada do governo, que se despedia de seu predecessor com uma retumbante “Viva o Imperador!”. Estas foram as palavras do marechal no Campo de Santana a por cabo ao longo reinado tropical de D. Pedro II.

Muitos colocam a Princesa Isabel, com sua beatitude (beirando a calorice), como culpada por não mantermos uma monarquia. Ora, isto é no mínimo supor que vivíamos sob uma monarquia frívola e opressora (como muitos ainda pensam ser uma monarquia). Já a relação causa/efeito, da Lei Áurea, em contra partida, tem sido uma das melhores campanhas pró-isabelinas, mesmo assim, superficial como argumento para a descaracterização do Brasil de então. No outro lado do prisma, pairam as cores secundarias, com argumentos de época, como o pensamento positivista (a última-moda intelectual) e a alienação do povo que seria salvo um seleto grupo de super heróis, na época em que eles não tinham todo o glamour cinematográfico, como tem hoje.

Sem legitimidade desde o golpe de 1889 a república brasileira tenta, até hoje, "explicar-se" frente ao povo brasileiro
 
A historia tem por combustível os fatos, mas se apresenta por meio de conceitos. O ouro branco constituiu uma novidade, no sentido que dá uma nova perspectiva a mesma coisa que conhecemos (unanimemente) por outra aparência, aquilo que reluz, mas que nem sempre é dourado. Precisamos nos ater aquilo que ainda não nos acostumamos (nem nos é confortável, quer sob o ponto de vista intelectual quer sob o ideológico)... a ver a realidade por ângulos diferentes. Compreendo que embora sejamos animais políticos, da política temos pouco aproveitado. Fica a lembrança do pai da Academia de Letras, que assim justificava seu realismo (para muitos um funesto pessimismo):

“(...) Como partidário de uma idéia, andou Victor Hugo perfeitamente. Como pensador e estadista, queiram perdoar-me; encosto-me antes a Montesquieu.
Para ser pensador é mister olhar as coisas por cima do ombro do seu partido.
Nisto incluo republicanos e monarquistas, socialistas e absolutistas, todos quantos querem organizar o mundo como um tabuleiro de xadrez, e dar a forma predileta de suas convicções como a panacéia universal de todas as doenças políticas, sem atenção à índole, estado, tendências, desenvolvimento histórico e moral dos povos (...)”.

Os séculos passam, mas 1889 ainda está presente em nossa realidade, quer gostemos ou não. Ratificar ou retificar os erros é um dilema que se impõe. Que a história seja nossa musa, e não o nosso algoz.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Educação é o melhor remédio contra a corrupção



Por: José Boas

Dizem os antigos ditados: “é de pequenino que se torce o pepino”; “construir uma escola é derrubar dois presídios”; “o homem reto se faz desde pequeno”; “honestidade vem de berço”. Todos estes adágios fazem alusão à educação que se dá à criança para que floresça o homem de caráter, íntegro, capaz de agir com hombridade mesmo diante da mais generalizada falta de ética.

Embora o governo federal diga que situação educacional do Brasil melhorou, a realidade de muitas escolas no interior é alarmante
 
O senso comum de nossa sociedade, no entanto, diz que todos estes ditos são figurativos e remetem a um mundo ideal, onde a educação é supervalorizada e que hoje as coisas caminham de outra maneira. Há aqueles ainda que falam que pensar assim é anacrônico, “coisa de saudosista”.

Recentemente o instituto de pesquisas DATAFOLHA contratou um grupo de estatísticos com uma finalidade: verificar a relação existente entre o índice educacional dos países e a percepção da corrupção existente entre seus habitantes. Para isso foram cruzados os rankings do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), o ranking mundial de corrupção da ONG Transparência Internacional e o Índice de Educação da ONU.

Nos países onde há maciço investimento em educação, índices de corrupção são baixos. Na foto, escola na Dinamarca
 
Ao final da análise o estudo realizado pelo DATAFOLHA indicou que há uma espécie de relação diametralmente oposta entre educação e corrupção. Como em uma gangorra, quando uma está no alto a outra estará em baixo.

No entanto, diz-nos a ciência, a escassez de dados pode nos levar a leituras enviesadas do universo pesquisado! Logo, vamos aumentar um pouco mais a complexidade do tema abordado. Será que outros índices apontam para o mesmo cenário?

Vamos somar ao PISA e ao ranking da corrupção os índices mundiais de educação da ONU e o ranking mundial das democracias, divulgado anualmente pelo The Economist. É de se esperar, com isso, que o aumento de dados nos possibilite uma leitura mais ampla do quadro geral e, por fim, comprovemos se os indícios apresentados pelo DATAFOLHA são confiáveis.

Com o entrecruzamento destes dados chegamos a um resultado bastante interessante: dos quinze países líderes em cada um dos rankings (PISA, corrupção, educação e democracia), nada menos que onze deles figuram ao menos em três listas. São eles: Austrália, Noruega, Nova Zelândia, Finlândia, Islândia, Canadá, Holanda, Dinamarca, Suíça, Luxemburgo e Irlanda.



Entendendo o porquê de isso acontecer...

Uma sociedade mais educada tem melhores instrumentos cognitivos para fiscalizar as ações do governo mais de perto e entende que as instituições do Estado não pertencem a um grupo político, mas à toda população; este entendimento, portanto, cria uma grande pressão sobre os políticos para que “façam a coisa certa”, diminuindo a margem para que conchavos e acertos de bastidores possam ocorrer.

Assim explica Rafael Alcadipani, da Fundação Getúlio Vargas: “trata-se de um círculo virtuoso, pois, com menos corrupção sobra mais dinheiro para os governos ou as pessoas investir em educação. E isso também faz com que o país se torne menos corrupto no futuro”.

Contribui para isso outro fator determinante: a liberdade de imprensa!

Em países onde há menos corrupção e melhor educação, a imprensa também é mais livre para investigar, questionar, apurar e denunciar; já em países corruptos a imprensa segue dois caminhos: ou se torna conivente com a corrupção ou é amordaçada através de regulamentações que dificultam ou até mesmo impedem o acesso a informações que deveriam ser públicas.

O caso do Brasil

Na contramão disso tudo segue a república brasileira. A despeito do que quer dizer o governo com suas caríssimas campanhas publicitárias, o país patina na educação, figurando na 67ª posição no índice de educação da ONU e na 53ª do PISA.

Enquanto perdurar esta triste equação, o brasileiro permanecerá sendo gado eleitoral, tentando solucionar uma equação cujos elementos - embora evidentes - ele sequer reconhece
 
Ora, pelo que pudemos ler até agora dos dados apresentados, se a educação está em queda a corrupção está em alta (69° lugar). Atualmente passamos a vergonha de figurar ao lado de países internacionalmente reconhecidos por seus negócios “por debaixo dos panos”, como a Bulgária, El Salvador, Vanuatu e Cuba.

Como a corrupção é grande a nossa democracia é frágil (45° posto) e nossa imprensa está comprometida (prova disso é que atualmente aparecemos na 108ª posição no ranking mundial)... os veículos que dispõem de meios para investigar vendem-se ou fazem vistas grossas, já os que têm vontade de esmiuçar o que de fato acontece por detrás das cortinas são impedidos por um sem-número de regulações e burocracias, quando não de processos e pesadas multas por divulgarem “dados sigilosos”.

“A imprensa existe para publicar o que alguns não querem que se publique. Todo o resto é publicidade.”
(George Orwell)

Os mais pessimistas podem olhar para estes dados e afirmar que “sempre foi assim e que qualquer movimento para que haja alguma melhora é inútil”, mas será mesmo? Esse discurso só serve para duas coisas: manter a situação caótica ou, pior, contribuir para que tudo piore ainda mais, pois a passividade dá força àquele que nos agride. 

O que podemos fazer para mudar a situação, pois? Em primeiro lugar, comecemos por dar maior valor à educação, principalmente nos primeiros anos de formação: nossos filhos não são só os herdeiros deste país, mas seus futuros dirigentes; em segundo lugar, passemos a cobrar mais de nossos políticos: seus cargos não são uma conquista pessoal, mas uma responsabilidade assumida com cada cidadã ou cidadão; em terceiro lugar, exijamos maior qualidade da imprensa que nos informa, deixando de acreditar cegamente na matéria mais chamativa, quer seja ela pessimista, sensacionalista ou otimista (via de regra este tipo de texto traz dados manipulados ou até falsos); em quarto lugar, não sejamos nós agentes da corrupção! Voltando aos ditados com os quais começamos, “ladrão de tostão é ladrão de milhão”... temos que nos ater a fato que pequenos ou grandes, atos de corrupção são todos igualmente culpáveis.